quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

 Quão boa deve ser a vida do homem que vive no metrô!


Queria entrar no metrô com destino ao infinito e viver em constante trânsito.

Encontrar pelo meu caminho apenas rostos frios, fechados, impenetráveis e também em trânsito.

Existir ao outro apenas como um rosto frio, fechado, impenetrável e em constante trânsito.

Incapaz de preencher vazios.

Eventualmente a costumeira e impessoal pergunta da pessoa perdida e nada mais.


Nunca vi o condutor do metrô.


A voz alheia e robótica que soa pelo vagão é sempre a mesma,

Inundada no zumbido de pessoas em trânsito,

Anuncia sempre e inevitavelmente o fim de meu descanso.

Não vivo no metrô.

Cheguei à minha estação.




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

i would rather not go

back to the old house.

there's too many bad memories.

there's too many memories there.


when you cycled by,

here began all my dreams.

the saddest thing

i'd ever seen.


and you never knew

how much I really liked you.

because I never even told you.

oh, and I meant to.

are you still there?

or have you moved away?


I would love to go

back to the old house.

but I never will.

I never will.

I never will.



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Lua

Lua, és tão linda.

Ao repousar em ti

e dar por teu ciclo,

deito-me sob a tua luz,

contente e aliviado.

Pois tu é real, 

e real apenas tu é.


A ti, corpo que não teve a benção da consciência.

Saiba que em mim tu és perfeita.

Anseio te ver

todas as noites de todos os dias.

domingo, 26 de janeiro de 2025

desperdice

Temos que nos permitir a existência dos dias que acreditamos terem sido desperdiçados.

Buscar eles, 

de fato, viver a desperdiçar dias.

Em protesto ao improdutivo equilíbrio,

 nos afundar e nos esgotar,

 e,

 de fato,

 buscar se afogar.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Estadão Bar e Lanches

Há muito tempo que eu queria ir ao Estadão Bar e Lanches no centro de São Paulo para comer seu famoso sanduíche de pernil, ontem enfim, consegui ir.
Era um dia chuvoso típico de São Paulo no qual a chuva consegue molhar apenas o seu ombro e suas meias, nem a chuva cai bem em São Paulo. Uma chuva mirrada e intermitente que não é forte o suficiente para cancelar seus planos e nem fraca o suficiente para ser desagradável, você é quase que moralmente obrigado a sair de casa na chuva. Quando chove no centro de São Paulo o odor de urina desaparece e torna a experiência de andar em um bairro caótico, um pouco mais amena. O centro de São Paulo te convida a existir de uma forma um pouco mais antiquada uma vez que, por medo de ser roubado, você não consulta o mapa do celular e têm que depender de sua memória e habilidade de se localizar (me perdi algumas vezes andando em círculos ao redor do Anhangabaú). O crime paulistano, portanto, oferece uma experiência bucólica de refúgio analógico ao transeunte da maior cidade da américa latina. 
Quando finalmente consegui chegar no Estadão Bar e Lanches, encontrei muito conforto para os meus pés molhados naquele ambiente cheio, apertado e muito aconchegante. Percorri um balcão que parecia não terminar até encontrar um pedaço dele que estava vazio, não haviam bancos e fiquei de pé em frente ao balcão. Em protesto à minha vontade de sentar e aos Romanos, decidi me deleitar em comer de pé. Um homem cujo toda a aparência gritava "funcionário há 30 anos" me atendeu muito naturalmente. Pedi um kibe frito, um sanduíche de pernil e um suco de limão. O atendente se portava como uma estatua cansada e estoicamente apenas recebeu meu pedido de forma completamente neutra, processou mentalmente o que eu disse por alguns segundos, virou para trás e gritou "Um pernil!", virou para seu lado direito e falou "Limão." e olhou para a vitrine na sua frente, abriu-a e tirou um kibe frito de dentro que prontamente me foi servido em um pequeno prato retangular de papel. 
O kibe estava morno, mal recheado e mal temperado mas meu foco era o sanduíche de pernil. Me atiçaram com 3 sanduíches de pernil que saíram do balcão pela minha frente até que o 4º que apareceu era o meu. Alto, bonito e visivelmente cheio de pernil, eu vi aquele objeto de um desejo tão maturado finalmente se materializar na minha frente.
O Estadão Bar e Lanches é muito mencionado pelos cozinheiros nas cozinhas de São Paulo como um ponto de encontro pós-trabalho e, por eu ser um tanto antissocial, apenas ouvia as histórias sem nunca saborear nada e cada um que falava do "Pernil do Estadão" aumentava mais o meu desejo. Quando eu finalmente pude colocar este sanduíche na boca eu percebi que se tratava de mais um daqueles clássicos casos culinários nos quais a tradição é mais forte do que o sabor. A mística, história e diversas estórias sobre o Estadão Bar e Lanches são os sabores predominantes da comida. O sanduíche em si é apenas um sanduíche de pernil. Já comi melhores. No meio do sanduíche busquei um pote de pimenta que se encontrava em cima de um pires sujo de pernil que se encontrava em cima de um barril também sujo de pernil. Mastiguei mais um pedaço do sanduíche enquanto criava coragem para apimentar essa morna relação que o estadão me vendera por 30 reais.
No grande contexto das pimentas e sanduíches de pernil, a pimenta do estadão se destaca mais do que o sanduíche, conservada em óleo na medida certa de picância e sabor.
O homem do suco esquecera de fazer o meu "limão" e levou um esporro do homem que me atendeu - "o limão do cara porra" - e respondeu como responde todo cozinheiro que esquece de algum pedido, "Ah, o limão né". Este suco foi melhor suco de limão que já tomei. Nunca tinha conseguido encontrar o equilíbrio entre o doce e o ácido como nesse suco. (uma vez, há uns 12 anos, na fazenda do meu avô, a esposa do caseiro tinha encontrado este equilíbrio perfeito mas curiosamente nunca mais a vi. Acredito que foi expulsa do éden por ter me proporcionado tanto prazer com uma fruta.").
Tudo ficou uns 50 reais. Paguei com dinheiro para agilizar o processo e na saída procurei o famigerado buraco na calçada por onde eles recebem os insumos, encontrei e eles estavam recebendo hortifrúti.
De modo geral foi gostoso e visitaria novamente se eu estivesse por perto mas não peregrinaria novamente até o centro de São Paulo só pelo Estadão Bar e Lanches. Se você nunca foi, vá.

domingo, 24 de novembro de 2024

essas coisas só acontecem comigo parte 1

Quando digo "essas coisas só acontecem comigo" eu esqueço que elas devem acontecer com todo mundo porém só a mim me conferiram o fardo de ser extremamente chato e anal no que diz respeito ao SERVIÇO. Me formei cozinheiro dentro de um restaurante de extremo rigor onde a excelência de serviço tinha que se manter em padrões mundiais. O gringo vinha ver todo dia. Desse lugar, além dos traumas e constante dúvida sobre minha escolha de profissão, pude tirar um aprendizado gigantesco sobre serviço, sobre o que é certo e o que é errado. Por mais que muitas pessoas hoje em dia acham que existe um pós-certo e que as coisas devem ser descontraídas e que a vida é linda e os rios são azuis e as folhas são verdes, o cliente, que escolhe por livre e espontânea vontade gastar o dinheiro dele com o seu serviço, deve ser tratado da melhor maneira possível. AGORA ME DIZ, porque que eu sento NO BAR, tem DOIS BARMANs atrás do BAR (ONDE ESTOU SENTADO) e quando o BARMAN começa a me atender ele é INTERROMPIDO por um GARÇON que me pergunta se eu já fui atendido. 
Acabei pedindo para o garçon mesmo uma vez que o barman se retirou com cara de gastrite após ser interrompido pelo querido funcionário do salão (detalhe: o garçon, que trabalha em um bar UPSCALE, não sabia o que era Whiskey Sour). Bar vazio. O garçon foi até o outro barman e pediu o meu drink para ele. O drink foi feito do outro lado do bar enquanto os dois barmans reclamavam em voz alta sobre o trabalho. Quando o drink ficou pronto, o barman o entregou para o garçon que então me trouxe o drink NO MESMO BAR em que ele foi feito. Vou DESENHAR porque não tenho a capacidade de expressar algo tão RIDICULO apenas em palavras:

O drink chegou e, para a surpresa de ninguém, estava horrível. Parecia uma limonada aguada com espuminha. Tomei o drink em 3 goladas, agradeci muito pelo ótimo drink e fui embora.
Isso acontece com todo mundo, todos os dias, acontece que eu nasci chato, muito chato, muito chato mesmo e, por consequência disso, sofro todos os dias em que saio de casa. Não acho que ninguém tem que melhorar, na verdade prefiro que piorem e facilitem a competição nesta indústria selvagem, mas eu precisava desabafar. Funcionou, estou mais tranquilo. À partir de hoje irei relatar aqui, neste blog, todas as vezes que eu pensar "essas coisas só acontecem comigo"




sábado, 23 de novembro de 2024

mens inimicus

Meu maior inimigo desde que me tornei um ser pensante tem sido ser pensante. De todos os tigres, cobras e desastres naturais dos quais nos separamos enquanto espécie, nos restou o mais perigoso de todos os predadores, a nossa própria mente. Perfeitamente adequada para manter-nos de pés e mãos atadas à gorar por um constante conforto da pausa no ser, perfeitamente adequada para se manter em um vácuo de decisões que não decide mudar o que vem e muito menos compreender o que se foi. 

A nossa mente animal busca sempre o decrescimento das conquistas do ego, simplificar e reduzir as responsabilidades que alarmam incessantemente os gatilhos da sobrevivência selvagem. Viver e trabalhar em conjunto nos faz agir priorizando a aprovação do outro à aprovação e contentamento interno, manter-nos aceitos dentro da aldeia é uma garantia de vida maior do que qualquer melhora pessoal. O cinto segura a calça que segura o cinto e assim em diante construímos uma falsa sensação de estabilidade em cima de uma fraca fundação de si. 


 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Arte como materialização da consciência humana

Tudo que vemos, tudo que nos é apresentado e tudo que nos está disponível para experimentar e interagir que tenha sido fruto da necessidade hercúlea do homem de transferir sua mente para o mundo das coisas tangíveis, deve ser chamado de arte.

Vigas, tijolos, asfalto, microchip, cadeiras, barcos e tudo que o homem constrói vem de sua consciência, tudo teve de ser pensado antes de existir, portanto, um prédio representa a mente humana assim como o homem se expande na sua casa e torna cada canto, esquina e curva em si mesmo. Decorações, aromas, e retoques são todas formas de agregar a nossa própria consciência ao mundo material (também fazemos isso com outros humanos). 

A arte está incluída no grupo das antropias e portanto é também uma representação da mente humana, inclusive, seu objetivo é justamente esse e única e exclusivamente esse. Fazemos arte porque precisamos desesperadamente materializar um sentimento e não importa o meio de expressão ou qualidade da obra, toda expressão artística é um fragmento da consciência humana. Conhecemos uns aos outros pela arte, perguntas sobre filmes, musicas e livros favoritos são tão costumeiras porque dizem muito sobre quem as responde.

A soma total de todas as artes é, em suma, O ser Humano. Um museu de arte contemporânea nada mais é do que um mostruário para quem estamos sendo. A arte é vista como o método humano de se apresentar a alguma consciência terceira; fazemos artes e colocamos as melhores em museus para causar certa impressão em quem as vê. Um Mondrian (que qualquer um faz essa merda que bosta de quadradinho colorido) ser vendido por milhões de dólares não afeta a vida de uma pessoa comum que fica com raiva ao saber que alguém pagou milhões de dólares em alguns quadrados coloridos, ela só se sente mal representada, ela sente que aquela expressão do Mondrian que está recebendo atenção não ressoa com seus próprios sentimentos e por isso eles não são válidos. 

A arte moderna "abstrata", muitas vezes não compreendida serve como a representação de uma sociedade na qual o bonito objetivo não faz sentido. Qual a relevância de um lindo bosque florido para a psique de uma sociedade que vive em constante medo? Por outro lado, uma sociedade que viveu por centenas de ano vivenciando os períodos mais sombrios da experiência humana implorava pela beleza e pela materialização de um mundo em que as lindas árvores verdes sombreiam os floridos e vivos lagos azuis. 

Resta a nós, massa humana, o dever de prestar atenção. Entender arte é entender o seu contexto e, estar conectado com a arte na sua máxima vanguarda é estar sobriamente vivo dentro de seu próprio contexto. Somos humanos, vivemos e nos expressamos em conjunto e nossa saúde depende disso. Compreenda para expressar e expresse para compreender.

domingo, 19 de novembro de 2023

quem sabe no dia em que eu morrer

e voce for pensar em tudo que fiz

quem sabe nos dias em que voce lembrar

voce verá que nao terei feito muito


não terei sido ultimo nem primeiro

não terei explorado o espaço

não terei morrido em grandes batalhas

mas terei andado muito de metrô


eu sei que nos dias em que voce lembrar

verá tudo que trilhei

que se minha vida chegou em algum lugar

foi andando de metrô