terça-feira, 17 de março de 2026

o quarto branco


De dentro de seu quarto, pálido

e inquieto, ponderava um homem.

E eu, pisando em úmida grama,

o via pela janela que dava para o mundo.


O homem, pequeno como animal inocente,

se fazendo de morto à luz dum falso perigo,

sorria faceiro pelos cantos da boca cínica

que acompanhava o samba sôfrego dos ombros.


Firmou, de repente, ainda sorrindo, os pés

no morno piso acolchoado do quarto branco.

Guiou-se cego pelas paredes até a janela fria

e, com os olhos opacos, defenestrou, sem pudor,

que o sofrimento é desperdiçado na vida do sofredor.


Deu uma volta pelo quarto branco e, confinado,

tentou se mexer. Procurou correr, mas, preso,

caiu sobre o chão do quarto branco, e nele

ressoaram as mágoas de um homem inóspito

que já não tem mais pelo o que sofrer.


O homem, ali defunto em sua poça de mágoas,

não vive o amor, não tem desejo, não quer nada.

E eu, do lado de fora da janela que dava para o mundo,

fitava fixamente o homem sem saudades que chorava.


E eu, avistando o homem, 

desperdiçava da vida o sofrimento,

esperando cheio de vontade

a minha vez de entrar no quarto branco.



quarta-feira, 11 de março de 2026

ostras em floripa

Se um dia eu puder convencer os animais ariscos,

da calma e da eternidade que existem no amor,

e da paz e da beleza que existem na vida humana.

Se um dia eu puder falar com os animais selvagens.


Se um dia me abandonar por inteiro este medo

do esturrar das onças e dos risos das hienas,

das ferroadas das abelhas e dos botes das cobras.

Se um dia eu me aproximar desses seres difíceis.


Se um dia eu acreditar que ao tocá-los conseguirei

transmitir por simples telepatia quanta vida me trazem

as rochas, os mares, as aves, os cheiros e os sabores.

Se um dia esses bichos chucros me inspirarem o brio.


Se por um dia inteiro este medo me abandonar,

e livre, durante este dia, essas hidras eu enfrentar.

Quanto mais amor poderia eu então compartilhar

com os ares, os montes, as chuvas, as luas e o sol?