A parte que atualmente se apresenta mais curiosa em minha vida é a que se diz respeito aos pedidos que fazemos durante a vida. Recordando meu quarto de centena, consigo me lembrar de diversos pedidos fundamentais que fiz e que inevitavelmente foram cumpridos. Fiz estes pedidos ao ar, ao travesseiro, ao espelho, às costas das pessoas, aos prantos e quem quer que tenha os escutado, os cumpriu.
Os pedidos se manifestam na minha vida como a erupção de uma longa batalha entre a insatisfação e a negação. Vivo constantemente altaneiro às minhas situações até o momento em que me deparo em estados indesejáveis. A principio estes indesejos são pequenos e posso carregá-los em meus bolsos, eventualmente eles ficam maiores e mais pesados e mais difíceis de serem ignorados. Certo dia no entanto, ao olhar para o espelho eu percebo que, movida por uma tóxica e constante aversão por si mesmo, se instalou uma indelével catarata sobre todo o meu julgamento. Aí se consolida a cólera, os altos muros da íngreme negação caem pelas mãos ardilosas da insatisfação e sobre o cadáver coberto pela mortalha de vergonha, ressoam os pedidos desesperados de uma alma fraca.
O primeiro pedido pelo qual me lembro de declarar em brado de derrota veio de uma longa insatisfação com o meu estado fisico. Eu era gordo e sofria relativamente bastante com isso. Ser um menino gordo te faz entender um pouco mais cedo algumas dores crônicas da vida. Você não sofre grandes injustiças, dolos inimagináveis ou violências extremas, você sofre pequenas pontadas ao longo da semana. Alguns dias passas desapercebido, alguns dias olhas para os seus dedos roliços, puxa a pele por trás da falange e vê como estes asquerosos dedos seriam se você fosse magro. Alguns dias você vê do outro lado da rua um grupo de pessoas rindo e claro, com certeza, eles não estavam rindo de mim, isso nem faria sentido. Te atormentam diariamente o constante ato involuntário de arrumar a camiseta, se cobrir sempre que possível ou ter que justificar para si mesmo todos os dias, a sádica decisão de vestir escaldantes blusas que abrigam de forma aceitável o seu estorvo sebáceo. A familia, os amigos e os professores servem como ásperos lembretes e, a todo o instante você se compara, incessantemente o seu confuso olhar se machuca, você abraça todos os dias arbustos espinhentos que você mesmo plantou e, sempre que necessário você se encontra de prontidão para ser alvo de alguma piada, afinal este é o seu papel. Um dia então, eu pedi, pedi ao espelho e aos prantos, e acho que também pedi para Deus. Pedi para ser magro. Dentro de poucos meses entrei na minha atrasada puberdade, cresci e meu peso se espalhou em um corpo trinta centímetros mais alto. Eu estava magro e como um pesadelo ou uma penitência, tão rápido quanto eu engordara, eu emagreci.
Desde então conforme fui vivendo, fui pedindo. Meus pedidos sempre se consolidavam, tangenciando todos os vertices da minha vida, de alguma forma, eles sempre aconteciam. Alguns chegavam mais rapidamente, alguns demoraram anos e alguns ainda chegarão. Curiosamente não me lembro de nenhum dos pedidos que ainda estão em aberto com o universo. Creio que peço tudo, tudo tudo. Tudo que se pode querer, tudo que se pode pedir, eu pedi. Se fiz alguma coisa em todos a minha vida, esta coisa deve ter sido ansiar. Portanto, quando hoje me pego olhando para os róseos dedos de Eos e sou absorvido em pensamentos de reconhecer minhas fortunas da vida, penso sempre que todos os frutos que colhi foram plantados pelo o meu pedido.
São Paulo, 4 de fevereiro de 2026
