terça-feira, 17 de março de 2026

o quarto branco


De dentro de seu quarto, pálido

e inquieto, ponderava um homem.

E eu, pisando em úmida grama,

o via pela janela que dava para o mundo.


O homem, pequeno como animal inocente,

se fazendo de morto à luz dum falso perigo,

sorria faceiro pelos cantos da boca cínica

que acompanhava o samba sôfrego dos ombros.


Firmou, de repente, ainda sorrindo, os pés

no morno piso acolchoado do quarto branco.

Guiou-se cego pelas paredes até a janela fria

e, com os olhos opacos, defenestrou, sem pudor,

que o sofrimento é desperdiçado na vida do sofredor.


Deu uma volta pelo quarto branco e, confinado,

tentou se mexer. Procurou correr, mas, preso,

caiu sobre o chão do quarto branco, e nele

ressoaram as mágoas de um homem inóspito

que já não tem mais pelo o que sofrer.


O homem, ali defunto em sua poça de mágoas,

não vive o amor, não tem desejo, não quer nada.

E eu, do lado de fora da janela que dava para o mundo,

fitava fixamente o homem sem saudades que chorava.


E eu, avistando o homem, 

desperdiçava da vida o sofrimento,

esperando cheio de vontade

a minha vez de entrar no quarto branco.



quarta-feira, 11 de março de 2026

ostras em floripa

Se um dia eu puder convencer os animais ariscos,

da calma e da eternidade que existem no amor,

e da paz e da beleza que existem na vida humana.

Se um dia eu puder falar com os animais selvagens.


Se um dia me abandonar por inteiro este medo

do esturrar das onças e dos risos das hienas,

das ferroadas das abelhas e dos botes das cobras.

Se um dia eu me aproximar desses seres difíceis.


Se um dia eu acreditar que ao tocá-los conseguirei

transmitir por simples telepatia quanta vida me trazem

as rochas, os mares, as aves, os cheiros e os sabores.

Se um dia esses bichos chucros me inspirarem o brio.


Se por um dia inteiro este medo me abandonar,

e livre, durante este dia, essas hidras eu enfrentar.

Quanto mais amor poderia eu então compartilhar

com os ares, os montes, as chuvas, as luas e o sol?



 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Ensaiando o sanduíche #1

Com certeza uma das coisas mais interessantes que existem na gastronomia é o sanduíche. Uma apresentação verdadeiramente sintetizada de possibilidades infinitamente complexas: O propósito de todo artista sério. Todos os fatores possíveis do sanduíche se apresentam ao comensal ao mesmo tempo, de forma única, em apenas uma mordida. Todos os elementos e camadas do sanduíche estão abertos ao pensamento fantasioso de famintos cozinheiros. O pão se torna um palco em que, sanduíche após sanduíche, grupos de ingredientes diferentes se apresentam, alguns com mais harmonia do que os outros, alguns de forma escassa, e alguns chegam a ser exagerados, mas uma coisa é quase sempre certa: o espectador se sente honrado de participar  da fagia desta apresentação de ingredientes. Desde que me conheço por gente eu como sanduíches e, é claro, depois que entrei para o mundo da gastronomia comecei a entender o que sentia, o que queria sentir e o que poderia emanar através do complexo mundo do pão recheado. Me especializei na fundação, no palco, na constituição principal do sanduíche: O PÃO. Me tornei um padeiro de altíssimo nível. Eu levo o sanduíche a sério e imaginei que se não fosse mestre do cerne fundamental da construção de um sanduíche eu nunca poderia sequer ousar pensar em inventar sanduíches, afinal, toda inovação parte da maestria dos fundamentos. 

O pão, sem duvida, é a parte mais importante de qualquer sanduíche. O pão é o primeiro contato com a boca, é o representante principal de textura, é o bloco construtor de toda ambiciosa megalópole de sabor. Sem um bom pão, o sanduíche não se completa. O pão é, ao mesmo tempo, a introdução e a conclusão; o pão abre o concerto, lubrifica a plateia e abre alas para o brilho do recheio. Isso se confirma nos casos contrários; quem nunca comeu um sanduíche e ao sentir o céu da boca estufado por uma massa obtusa, olhou para a própria lapela coberta de recheio e percebeu que aquele sanduíche que tinha muito potencial se tornara um estorvo em uma outrora deliciosa refeição? Um bom pão carrega um recheio ruim, mas um bom recheio sempre será defasado por um mau pão (sim, mau. Pães ruins são ofensivos). O pão, é claro, se apresenta de uma quantidade de formas equivalente à massa estelar de uma noite em alto mar. São infinitas as possibilidades: baguette, focaccia, ciabatta, forma, rosca, filão, croissant, francês, português, sírio, tortilla, naan, concha, cristal, boule, batard, panettone, centeio, miga, tortano, bao, campanha, brioche, brioche sucrée, brioche nanterre, brioche à tête, brioche vendéenne, brioche saint genix, e eu poderia perder o resto da minha vida citando pães, porém saiba apenas que se o ingrediente principal é farinha e é fermentado, se pode fazer sanduíche.

Cada tipo de pão chama um tipo de recheio, como acordes em uma melodia, perguntas e respostas, conflitos e resoluções, o doce e o amargo, o sal da terra e o doce da chuva. Não seria diferente que o sanduíche precisasse também ser acometido pelo equilíbrio cósmico que rege todas as facetas da nossa vida. Um pão um pouco mais mole, de mordida curta, para poder abarcar um recheio também mole e, muitas vezes, úmido, precisa passar por um processo de transformação ígnea que confere no pão a estrutura necessária para possibilitar a apresentação de uma verdadeira consonância brejeira de ingredientes. Assim como muitas vezes se demolha o pão duro, de mordida longa, com condimentos e gorduras para que ele não se apresente de forma desmedida em relação ao tímido recheio. O arquiteto deve sempre buscar o equilíbrio.

É então, buscando a maestria sobre o complexo universo da arquitetura do sanduíche e, principalmente, sobre o sempre inovado mundo dos recheios, que inicio aqui uma série de ensaios sobre experimentos que farei no âmbito dos sanduíches. É motivado de uma vontade muito antiga, que declaro aberta a série "Ensaiando o sanduíche". Com muito orgulho, lhes apresento o primeiro e singelo sanduíche que finalmente me levou a finalmente tirar esta velha ideia das gavetas do pensamento:

Pão de forma clássico. Atualmente estou completamente apaixonado pelo pão de milho da marca nutri vida, que, apesar de possuir melhoradores de farinha, ainda transparece um pouco de respeito pelo ávido consumidor médio de pão e apresenta um produto de certa forma respeitável. 6/10

Maionese Kewpie. Um clássico, inigualável, se nunca provou, prove, se não tem na sua geladeira, compre imediatamente. Mais uma daquelas coisas bobas do dia a dia que os japoneses decidiram um dia se tornarem os líderes de todo o mercado. Lembre-se de que a maionese é gordura, portanto trate-a como gordura, passe-a no pão e leve ao fogo bem baixo, não mexa muito, quanto mais tempo você tiver nessa etapa, mais você será recompensado. Deixe a mágica acontecer e quando a superfície do pão estiver coberta por uma tenra película âmbar, tire da frigideira. 10/10

Picles Doce. Qualquer picles que seja feito com uma proporção maior do que 1/3 de açúcar e que leve bastante Dill em sua composição, e, é claro, pepino. Não me venha com mini milhos em conserva, quando eu digo picles eu digo pepinos em conserva de vinagre e ponto final (aos fãs do Noma, que, se pudessem, colocariam até a própria mãe em uma solução salina, tirem os sapatos e pisem em um pouco de grama, vai lhes fazer bem.). Cortado em rodelas finas e colocados sobre a maionese de forma a não se sobreporem, porém preenchendo toda a superfície do pão. 8/10

Queijo e Presunto. Quem sou eu, ou melhor, quem somos nós? Somos brasileiros, crescemos comendo queijo e presunto. Sabemos desde os nossos primórdios qual nosso queijo e presunto favoritos, portanto use-os. Neste caso, porém, utilizei o queijo lua cheia da maravilhosa Serra das Antas. O nasal fúngico desse queijo combinou muito com o todo que houvera sido construído entre as duas camadas de pão de forma e recomendo àqueles que são um pouco mais versados em queijos. Esquentei o queijo em um forno elétrico para volatilizar os seus aromas, mas nada além disso. 7/10

Este é o primeiro sanduíche desta série que pretendo manter pela totalidade da minha vida. Reproduzam-o, sejam felizes, ele é um dos mais simples de todos, sem dúvidas, muitos dos que chegarem a ler isto já o terão comido alguma vez na vida, mas... aproveite a ocasião, faça ele novamente, aproveite a simplicidade, a síntese, a honestidade de um bom e correto sanduíche. Seja feliz e que Deus te abençoe. 7.75/10


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Consulta


Doutor, estou com uma dor tremenda, doutor.

Uma dor esquisita, doutor.

Esta dor, doutor, não dói em lugar algum,

mas, doutor, quando dói, doutor, dói parece que atrás dos olhos,

dói parece que entre as orelhas, sabe?

Bem naquele lugar que não conseguimos ver, sabe, doutor?

Bem onde fica o pensamento, sabe, doutor?

Bem onde fica o pensamento, você sabe, doutor!

Esta dor, doutor, não é como a que tenho nos joelhos,

não! Doutor, a dor dos meus joelhos me deixa imóvel,

me causa ânsia, me faz suar frio, engolir seco...

Já esta dor esquisita não, doutor, ela é... ela é, sabe...

pensando bem doutor, os sintomas são os mesmos.

Tem dias em que acordo possuído por esta dor, 

nestes dias, fico até animado quando meus joelhos doem.

Meus joelhos me distraem desta dor na têmpora.

A dor dos meus joelhos faz sentido, doutor,

o que faz sentido não me incomoda, doutor,

esta dor que não da pontadas, doutor,

esta dor que não queima, doutor,

esta dor não faz sentido algum, doutor.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 

A parte que atualmente se apresenta mais curiosa em minha vida é a que se diz respeito aos pedidos que fazemos durante a vida. Recordando meu quarto de centena, consigo me lembrar de diversos pedidos fundamentais que fiz e que inevitavelmente foram cumpridos. Fiz estes pedidos ao ar, ao travesseiro, ao espelho, às costas das pessoas, aos prantos e quem quer que tenha os escutado, os cumpriu. 

Os pedidos se manifestam na minha vida como a erupção de uma longa batalha entre a insatisfação e a negação. Vivo constantemente altaneiro às minhas situações até o momento em que me deparo em estados indesejáveis. A principio estes indesejos são pequenos e posso carregá-los em meus bolsos, eventualmente eles ficam maiores e mais pesados e mais difíceis de serem ignorados. Certo dia no entanto, ao olhar para o espelho eu percebo que, movida por uma tóxica e constante aversão por si mesmo, se instalou uma indelével catarata sobre todo o meu julgamento. Aí se consolida a cólera, os altos muros da íngreme negação caem pelas mãos ardilosas da insatisfação e sobre o cadáver coberto pela mortalha de vergonha, ressoam os pedidos desesperados de uma alma fraca.

O primeiro pedido pelo qual me lembro de declarar em brado de derrota veio de uma longa insatisfação com o meu estado fisico. Eu era gordo e sofria relativamente bastante com isso. Ser um menino gordo te faz entender um pouco mais cedo algumas dores crônicas da vida. Você não sofre grandes injustiças, dolos inimagináveis ou violências extremas, você sofre pequenas pontadas ao longo da semana. Alguns dias passas desapercebido, alguns dias olhas para os seus dedos roliços, puxa a pele por trás da falange e vê como estes asquerosos dedos seriam se você fosse magro. Alguns dias você vê do outro lado da rua um grupo de pessoas rindo e claro, com certeza, eles não estavam rindo de mim, isso nem faria sentido. Te atormentam diariamente o constante ato involuntário de arrumar a camiseta, se cobrir sempre que possível ou ter que justificar para si mesmo todos os dias, a sádica decisão de vestir escaldantes blusas que abrigam de forma aceitável o seu estorvo sebáceo. A familia, os amigos e os professores servem como ásperos lembretes e, a todo o instante você se compara, incessantemente o seu confuso olhar se machuca, você abraça todos os dias arbustos espinhentos que você mesmo plantou e, sempre que necessário você se encontra de prontidão para ser alvo de alguma piada, afinal este é o seu papel. Um dia então, eu pedi, pedi ao espelho e aos prantos, e acho que também pedi para Deus. Pedi para ser magro. Dentro de poucos meses entrei na minha atrasada puberdade, cresci e meu peso se espalhou em um corpo trinta centímetros mais alto. Eu estava magro e como um pesadelo ou uma penitência, tão rápido quanto eu engordara, eu emagreci. 

Desde então conforme fui vivendo, fui pedindo. Meus pedidos sempre se consolidavam, tangenciando todos os vertices da minha vida, de alguma forma, eles sempre aconteciam. Alguns chegavam mais rapidamente, alguns demoraram anos e alguns ainda chegarão. Curiosamente não me lembro de nenhum dos pedidos que ainda estão em aberto com o universo. Creio que peço tudo, tudo tudo. Tudo que se pode querer, tudo que se pode pedir, eu pedi. Se fiz alguma coisa em todos a minha vida, esta coisa deve ter sido ansiar. Portanto, quando hoje me pego olhando para os róseos dedos de Eos e sou absorvido em pensamentos de reconhecer minhas fortunas da vida, penso sempre que todos os frutos que colhi foram plantados pelo o meu pedido.  

São Paulo, 4 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Habemus vídeo

Depois de uma boa seca criativa consegui encontrar um caminho para finalizar o audio e, consequentemente, o vídeo de "Não Jogue Lixo na Rua". Afinei o violão em Dó e estava brincando com os dois primeiros acordes de "Canto da Lua" do genial Lucas Madi. A segunda melodia de violão é de alguma música dos Novos Baianos que não consigo me lembrar agora exatamente qual. Mesmo assim, estou feliz de poder concluir finalmente este projeto que alugou todo o meu espaço criativo por um bom tempo. 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

barren



perhaps you are the prettiest that's ever been,

from your mother's filtered thoughts

and into 

her barren hips, and 

back to living, 

in your parents dreams.


   - Paulie Walnuts

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Loucura - Lupicínio Rodrigues

 

E aí, Eu comecei a cometer loucura,

era um verdadeiro inferno, uma tortura

o que eu sofria por aquele amor.


Milhões de diabinhos martelando

um pobre coração que agonizando,

já não podia mais de tanta dor.


E aí, eu comecei a cantar verso triste,

os mesmos versos que até hoje existem

na boca triste de algum sofredor.


Como é que existe alguem

que ainda tem coragem de dizer,

que os meus versos não contém mensagem,

são palavras frias, sem nenhum valor.


Ó, Deus! Será que o Senhor não está vendo isto?

Então, por que é que o Senhor mandou Cristo,

aqui na terra semear amor?


Se quando se tem alguém que ama de verdade,

serve de riso para a humanidade.

É um covarde, um fraco, um sonhador.


Se é que hoje tudo está tão diferente,

por que não deixa eu mostrar a essa gente,

que ainda existe o verdadeiro Amor.


Faça ela voltar de novo pra meu lado,

eu me sujeito a ser sacrificado,

SALVE SEU MUNDO COM A MINHA DOR.


- Lupicínio Rodrigues


Obra impecável do imortal Lupicínio, canção que duela com "Chão de Estrelas" de Orestes Barbosa, pelo trono de música mais linda da história do Brasil (Ao meu ver). Deixo aqui também a versão de Adriana Calcanhoto que reproduz muito bem todo o contexto emocional da música original:


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Não Jogue Lixo na Rua


não jogue lixo na rua.

rua:

Palco dos totens de lixo empilhado,

exposição diária do lixo encarnado,

lixo por cima de lixo organizado,

píncaro cinza de ódio estacionado.

  

Lixo nomeado.

Lixo catalogado.

Lixo frequentado.

Lixo mapeado.


Viva a frequentar a vida no lixo,

força natural e expansiva do homem,

forma material final da mente,

aterro populacional sempre vertical.


Embrenhe-se cada vez mais no lixo,

converse e dê bons risos com o lixo,

respire, beba, coma e vomite o lixo,

acorde e fatalmente perceba-te lixo.


Já concretizada a desgraça tua,

lembre-se do dogma que flutua,

pelo asseio de todos contribua,

não jogue lixo na rua.


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A parte de mim que trabalha está tentando me matar... Já não leio mais, já não escrevo mais, já não me exercito mais, toda a força é involuntariamente reservada ao trabalho. Horas vagas de suposto descanso, dedicadas ao exercício do pensamento sobre o trabalho. Cansativo e corrosivo trabalho. Horas essas em que outrora minha vida fora construída, horas em que descobri onde ficavam escondidas as belezas da vida, nas quais aprendi a ser humano, me expressar, me conectar. Essas horas que eventualmente me levaram ao trabalho através de uma paixão pelo desenvolvimento diário de um ofício, horas essas que, nos primeiros meses de trabalho foram complementares ao exercício da profissão como objetivo de vida, horas essas que, juntas ao trabalho, me proporcionaram momentos de profunda autoanálise que me ajudaram a escalar enormes píncaros de desenvolvimento pessoal. As coisas que eu gostava de fazer estavam alinhadas as coisas que eu tinha que fazer, e esse foi o problema. Tudo. Vira. Rotina. E rotina vira obrigação, e eu não me dou bem com obrigações.

Creio que os 25 anos de idade solidificaram a presença do tumor que constrói o cansaço no meu corpo e alma. Um cansaço quase que de tudo, quase que de nada, um cansaço geral que me acomete por todos os frontes em devastadoras debandadas, investidas mentais, blitzkriegs neurológicas, cansaço termonuclear, marasmo ultrassônico, moleza teleguiada. A sensação é mesmo de batalha, e batalha terrivelmente perdida. Meu "tesão" geral se manifesta como uma pequena nação que flerta com ideais comunistas e possui uma grande reserva de petróleo enquanto o cansaço se manifesta como um titã imperialista que irá causar a deposição do meu fogo vital enquanto elege o chato, senil e aborrecedor, Dr. Rotina o qual vive apenas pelas obrigações e necessidades capilares, dinheiro para isso, dinheiro para aquilo, decoro, formulários, elegância, polidez e todas as outras coleiras que vestimos orgulhosamente para os nossos pares admirarem e encontrarem consolo no fato de todos nós sermos obrigados a vesti-las. Aos 16 anos, eu já havia percebido isso mas não tinha como provar nem como por em palavras, hoje, no entanto, vejo tudo de dentro e percebo por fim que de fato, a vida é difícil.


São Paulo, 1 de Outubro de 2025

segunda-feira, 23 de junho de 2025

ode a Narciso

 

A chuva cai leve como garoa

molha e enche leve a lagoa

onde fita hirta uma pessoa

seu reflexo que lindo ecoa


A garoa pousa leve como pluma

na imagem que agrega à bruma

do pensar de uma vida à toa

que somente à si mesma coroa


Vê a vida sobre lagoa calma

o retrato congênere da alma

vista sob a sombra da palma

tranca os pés divino trauma


Perece rija a vida altiva

defronte imagem que cativa

convertida a vaidade em dor

desabrocha ao lago linda flor 


sábado, 21 de junho de 2025

sobre guardar discos

 Sobre guardar discos.

Tenho um certo problema com o ato de guardar discos, e escrevo na esperança de encontrar alguém que, tendo sofrido desta mesma moléstia do cotidiano, possa servir como companhia para o meu sofrimento desastrado. Uma coisa é ter um problema; outra coisa é compartilhar um problema. Este sentimento de conforto em partilhar aflições é, de fato, uma das poucas coisas boas de morar em São Paulo. Não importa qual o problema que você leva consigo na refrega diária do passeio público, você inevitavelmente se depara com faces derrotadas em todos os cantos. Problemas estampados na face de todas as pessoas confortam a sua face, também derrotada. Os problemas são sinônimos da vida paulistana, e você sente um certo conforto ao pensar que, além de você — um só, indivíduo, 1 —, outras dezenas de milhões de pessoas também estão cheias de problemas.

Mas enfim, sobre guardar discos,

Você acorda em um dia gelado e pintado pelo âmbar claro de um sol enfraquecido pelo inverno — condições essas que te recordam solenemente que metade do ano já passou —, e decide escutar um LP, ato que, em 2025, é quase radical. Parar para escutar um disco inteiro, sem acompanhar a música de uma dessas tarefas mundanas obrigatórias, como lavar roupa, lavar louça, lavar banheiro, lavar o chão, lavar o fogão... Apenas escutar música pelo ato de escutar música. Sem nenhuma ordem aleatória de músicas que não combinam, definida por um algoritmo publicitário desalmado, que compila músicas por palavras-chave para vender o máximo de estímulos e streams. Não! O simples ato “orgânico” de escutar uma sequência de faixas definida pelo próprio músico que as produziu.

Mas enfim, sobre guardar discos,

Você acorda, passa um café e se direciona à vitrola que, é claro, ainda apoia o último disco que protagonizou sua última "revolta" contra as playlists. Ele, porém, não é o disco que você quer escutar; afinal, você tem infinitos discos, e algo dentro de sua cabeça os humaniza e te diz, em tom disciplinar, que você deve aproveitar todos eles. Você então, cuidadosamente e com as mãos sujas de café, pega o disco que repousa sobre o prato giratório, dá uma assoprada nele que, convenhamos, faz mais em dispersar perdigotos do que, de fato, expulsar poeira. Segurando o disco na mão esquerda e com o corpo inclinado para o lado, você leva a ágil mão direita à pilha de centenas de discos para encontrar a capa do LP que precisa ser guardado — ato que seria muito mais rápido se você simplesmente desse um passo para o lado, ao invés de se inclinar, e se tivesse procurado pela capa antes de pegar o disco.

Muitas vezes me pego complicando estas microações insignificantes por simples força absoluta da preguiça, calculando economias insignificantes de energia que, na maioria das vezes, levam a problemas que requerem gastos maiores de energia para serem resolvidos: segurar uma panela enquanto tento, em vão, limpar o fogão com uma mão só ou, então, tentar tirar uma blusa enquanto pedala uma bicicleta e, inevitavelmente, ficar íntimo do duro e abrasivo asfalto.

Mas enfim, sobre guardar discos,

Você encontra a capa e tira de dentro da capa outra capa, nesse caso feita de papel fino. Ao tentar enfiar o disco dentro desta capa cinicamente apertada, de papel aparentemente frágil, você se dá conta de que o disco nunca coube nessa capa e que os efeitos barométricos nos materiais devem estar pregando uma peça em você. Enfim, com muito esforço mental e pouco esforço físico, o disco entra na capa. Em uma situação comicamente sisifiana, para colocar o disco encapado com papel fino dentro da capa de papel mais grosso, as tribulações são as mesmas. Porém, com seu grande espírito de mancebo repleto de vontade, você consegue escalar mais esse píncaro ingente da cordilheira das coisas banais.

Chega, pois, à última das hostes do exército das importunações mesquinhas: o prélio ainda é exatamente o mesmo, mas agora, tendo aprendido com as últimas duas batalhas, você decide enfrentar o problema de outra forma e, utilizando toda sua capacidade de raciocínio, vira a capa de papel mais grosso para baixo, para atacá-la de outro ângulo. E, enquanto você foca em abrir o plástico, o disco desliza das duas capas que já o envolviam e cai, em trajetória graciosa, em direção ao chão... Cai e fica ali girando como um disco de Euler. Gira, e cada rotação é um ataque pessoal às suas decisões.

Seu primeiro instinto, é claro, é pisar em cima dele para fazê-lo parar de girar (afinal, suas mãos estão ocupadas segurando capas e capas e capas de discos). Ele para de girar, é claro, mas uma fulgurante marca de poeira em formato de sola de sapato fica estampada no lado B de Houses of the Holy. O próximo passo, além de desistir, é tirar o disco do chão. Porém, o disco, ao ser pisoteado, ficou preso ao chão por um vácuo que só é quebrado arrastando o disco até algum relevo que permita você levantá-lo por um lado e tirar o pobre pisoteado do chão.

Você então, com muita dor no coração, arrasta o disco, e as vibrações dolorosas da poeira arranhando a superfície do disco são transmitidas das pontas dos seus dedos até as mais profundas áreas de auto-comiseração do seu cérebro. Enfim, você chega até o relevo, levanta o disco, condiciona-o na capa de papel fino, na capa de papel mais grosso e, finalmente, na capa de plástico. Escolhe um outro LP para escutar, tira-o da tríade de capas, posiciona-o na vitrola e pousa a agulha sobre ele com a mais culposa delicadeza.

Um som magnífico toma o cômodo inteiro, te surpreende, te anima, e você esquece da dura batalha que acabara de perder. Busca a xícara de café que acabou de ser passado e, ao dar um gole esperançoso, percebe que, durante esse tempo todo, o café esfriava.

São Paulo, 19-06-2025

     

terça-feira, 10 de junho de 2025

Confirmação

 

Derramo por ti diárias libações lacrimosas,

e a mim nada retornas, ó deus tão maligno. 

Tu, que a todos compele, menos a mim, diga: 

por que quanto mais devoto a ti sou, 

mais odioso a mim tu és? 


Sejais grato e reconheças tu o meu esforço. 

Me diga, então, tu, ó deus, se és como o Amor, 

que se faz mais escuro quanto mais é iluminado, 

e que se codifica ao passo de ser decifrado. 

Me diga:

 

que busca na devoção a simples vida vivida 

de seu maior fiel, 

em contraste à vida conduzida pela refrega do pensamento 

de seu maior pecador? 


Confirma, e serei temente. 

Serei temente, pois já no amor falhei,

tentado nomear cada olhar, cada abraço,

cada gesto e cada palavra. 


Confirma e restará a mim, enquanto temo, 

arranjar pouso nas palavras tenras, doces, 

e fatalmente solitárias, 

que tudo podem explicar, mas nada podem amar.

Espelho do banheiro

 

Espelho companheiro que vive

dependurado na fria parede de meu banheiro,

quantas vezes já não me viste?

Quantas vezes já não me vistes, em mil vestes, me vestir?

De quantas versões tão tristes as aversões já não reprimistes?

Tu, que demonstras de forma fiel minha imagem em pura cópia,

de nada tens culpa.


Se fosse eu árvore, mostraria árvore;

se fosse eu montes, mostraria montes.

Sou, no entanto, eu, e mostra-me eu.

De forma fiel, minha imagem em pura cópia

e de nada tens culpa.

Tenho eu, então, toda a culpa

pois a mim em ti não vejo.


Vejo baixo, reles, vil,

quando aponta para mim meus olhos

e o terror se apronta em mim. 

Entenda pois, espelho amigo, 

contigo não estou acabrunhado; 

afinal é tentando ver a mim mesmo

que meu sobrolho fica carregado.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

aniversário

 

    Hoje é meu aniversário, 25 anos. Dizem que é o primeiro quarto da vida, isso considerando uma rara vida de 100 anos... Diria que já é um terço da vida que já passou. Isso faz pensar, e muito. Mas já se foram os dias nos quais os aniversários eram agonizantes e cheios de dúvidas que me levavam a odiar os aniversários. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu não sabia quem eu era, não sabia quem eu queria ser e tinha medo de quem eu seria. No dia em que festejavam o dia dos meus anos eu era criança, perdida, indefesa.

    O dia de hoje, dia dos completos 25 ciclos, é marcado por maturidade, solidez e fundação. Hoje não tenho agonias, dúvidas ou ódio pelo deus atroz; tenho vontade de ver depressa o que virá ao que finalmente sou e inevitavelmente serei. Pois à parte de todos os poréns e "e se"s, está o único e exclusivo caminho da vida que impera sobre todas as encruzilhadas e este caminho é inevitável. Hoje, depois de 25 anos, já não tento mudar este caminho, apenas tenho me preparado para traçá-lo. Vivo hoje, acima de tudo, pelo amor incondicional à perfeição da experiência humana e nada peço, pois sei que tudo que hei de ter, terei quando houver de ter.


                Tornar-te ás só quem tu sempre foste.

                O que te os deuses dão, dão no começo.

                De uma só vez o Fado

                Te dá o fado, que és um.


                A pouco chega pois o esforço posto

                Na medida da tua força nata -     

                A pouco, se não foste

                Para mais concebido.

        

                Contenta-te com seres quem não podes

                Deixar de ser. Ainda te fica o vasto

                Céu pra cobrir-te, e a terra,

                Verde ou seca a seu tempo.

                                            Ricardo Reis 05/1921


São Paulo, 26 de Maio de 2025

domingo, 20 de abril de 2025

devaneio de domingo a noite

As semanas só são semanas porque um dia se tornaram semanas e de efetivo imediato instituíram controle sobre o passar dos dias, os dias são ressignificados; o sol de terça-feira não ilumina o solo das quartas-feiras. Nos apresentamos aos dias de forma regida pelo dia. Estranhamos os dias os quais nos apresentamos ao dia errado. Eu, me contorcendo em um sábado me sentindo a segunda-feira, causa atrito. Estranhamento. Desfoque


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São poucas as vezes em que o ganso não enche o bucho de grama, caminha pelo lago, repousa seu bico em sua asa, caminha mais um pouco, nada um pouco no lago, se refresca, come um pouco mais de grama, toma um pouco de sol, levanta a cabeça e olha altaneiro para o horizonte apenas para voltar o seu bico para o repouso de sua asa, se levanta, abana as asas, caminha lentamente para uma mão, humana, verdadeiramente humana, que carrega um pedaço de pão de forma, doce ó doce pão de forma, como é doce para o ganso deglutir o pão de forma, ele chega perto da mão e o corpo, que imerecidamente carrega uma mão tão humana profere: vem pato vem. pão de forma patinho vem. O ganso para em seus trilhos, paralisado, imóvel, inexorável, encara a humana que lhe chamou de pato, levanta uma pata, a chacoalha e repousa a pata sobre o solo novamente, vê o pão repousando em uma bituca de cigarro, encara, imóvel, o pão por alguns segundos, vai até ele e o come. Quão doce pode ser esse pão? Este pão que sozinho seria tão doce, quão doce ele realmente pode ser se acompanhado de uma dor? 

Musica do Dia 20-04-25


Emmit Remus - Red Hot Chilli Peppers

Californication - 1999