terça-feira, 17 de março de 2026

o quarto branco


De dentro de seu quarto, pálido

e inquieto, ponderava um homem.

E eu, pisando em úmida grama,

o via pela janela que dava para o mundo.


O homem, pequeno como animal inocente,

se fazendo de morto à luz dum falso perigo,

sorria faceiro pelos cantos da boca cínica

que acompanhava o samba sôfrego dos ombros.


Firmou, de repente, ainda sorrindo, os pés

no morno piso acolchoado do quarto branco.

Guiou-se cego pelas paredes até a janela fria

e, com os olhos opacos, defenestrou, sem pudor,

que o sofrimento é desperdiçado na vida do sofredor.


Deu uma volta pelo quarto branco e, confinado,

tentou se mexer. Procurou correr, mas, preso,

caiu sobre o chão do quarto branco, e nele

ressoaram as mágoas de um homem inóspito

que já não tem mais por o que sofrer.


O homem, ali defunto em sua poça de mágoas,

não vive o amor, não tem desejo, não quer nada.

E eu, do lado de fora da janela que dava para o mundo,

fitava fixamente o homem sem saudades que chorava.


E eu, avistando o homem, 

desperdiçava da vida o sofrimento,

esperando cheio de vontade

a minha vez de entrar no quarto branco.



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