De dentro de seu quarto, pálido
e inquieto, ponderava um homem.
E eu, pisando em úmida grama,
o via pela janela que dava para o mundo.
O homem, pequeno como animal inocente,
se fazendo de morto à luz dum falso perigo,
sorria faceiro pelos cantos da boca cínica
que acompanhava o samba sôfrego dos ombros.
Firmou, de repente, ainda sorrindo, os pés
no morno piso acolchoado do quarto branco.
Guiou-se cego pelas paredes até a janela fria
e, com os olhos opacos, defenestrou, sem pudor,
que o sofrimento é desperdiçado na vida do sofredor.
Deu uma volta pelo quarto branco e, confinado,
tentou se mexer. Procurou correr, mas, preso,
caiu sobre o chão do quarto branco, e nele
ressoaram as mágoas de um homem inóspito
que já não tem mais por o que sofrer.
O homem, ali defunto em sua poça de mágoas,
não vive o amor, não tem desejo, não quer nada.
E eu, do lado de fora da janela que dava para o mundo,
fitava fixamente o homem sem saudades que chorava.
E eu, avistando o homem,
desperdiçava da vida o sofrimento,
esperando cheio de vontade
a minha vez de entrar no quarto branco.
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