segunda-feira, 26 de maio de 2025

aniversário

 

    Hoje é meu aniversário, 25 anos. Dizem que é o primeiro quarto da vida, isso considerando uma rara vida de 100 anos... Diria que já é um terço da vida que já passou. Isso faz pensar, e muito. Mas já se foram os dias nos quais os aniversários eram agonizantes e cheios de dúvidas que me levavam a odiar os aniversários. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu não sabia quem eu era, não sabia quem eu queria ser e tinha medo de quem eu seria. No dia em que festejavam o dia dos meus anos eu era criança, perdida, indefesa.

    O dia de hoje, dia dos completos 25 ciclos, é marcado por maturidade, solidez e fundação. Hoje não tenho agonias, dúvidas ou ódio pelo deus atroz; tenho vontade de ver depressa o que virá ao que finalmente sou e inevitavelmente serei. Pois à parte de todos os poréns e "e se"s, está o único e exclusivo caminho da vida que impera sobre todas as encruzilhadas e este caminho é inevitável. Hoje, depois de 25 anos, já não tento mudar este caminho, apenas tenho me preparado para traçá-lo. Vivo hoje, acima de tudo, pelo amor incondicional à perfeição da experiência humana e nada peço, pois sei que tudo que hei de ter, terei quando houver de ter.


                Tornar-te ás só quem tu sempre foste.

                O que te os deuses dão, dão no começo.

                De uma só vez o Fado

                Te dá o fado, que és um.


                A pouco chega pois o esforço posto

                Na medida da tua força nata -     

                A pouco, se não foste

                Para mais concebido.

        

                Contenta-te com seres quem não podes

                Deixar de ser. Ainda te fica o vasto

                Céu pra cobrir-te, e a terra,

                Verde ou seca a seu tempo.

                                            Ricardo Reis 05/1921


São Paulo, 26 de Maio de 2025

domingo, 20 de abril de 2025

devaneio de domingo a noite

As semanas só são semanas porque um dia se tornaram semanas e de efetivo imediato instituíram controle sobre o passar dos dias, os dias são ressignificados; o sol de terça-feira não ilumina o solo das quartas-feiras. Nos apresentamos aos dias de forma regida pelo dia. Estranhamos os dias os quais nos apresentamos ao dia errado. Eu, me contorcendo em um sábado me sentindo a segunda-feira, causa atrito. Estranhamento. Desfoque


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São poucas as vezes em que o ganso não enche o bucho de grama, caminha pelo lago, repousa seu bico em sua asa, caminha mais um pouco, nada um pouco no lago, se refresca, come um pouco mais de grama, toma um pouco de sol, levanta a cabeça e olha altaneiro para o horizonte apenas para voltar o seu bico para o repouso de sua asa, se levanta, abana as asas, caminha lentamente para uma mão, humana, verdadeiramente humana, que carrega um pedaço de pão de forma, doce ó doce pão de forma, como é doce para o ganso deglutir o pão de forma, ele chega perto da mão e o corpo, que imerecidamente carrega uma mão tão humana profere: vem pato vem. pão de forma patinho vem. O ganso para em seus trilhos, paralisado, imóvel, inexorável, encara a humana que lhe chamou de pato, levanta uma pata, a chacoalha e repousa a pata sobre o solo novamente, vê o pão repousando em uma bituca de cigarro, encara, imóvel, o pão por alguns segundos, vai até ele e o come. Quão doce pode ser esse pão? Este pão que sozinho seria tão doce, quão doce ele realmente pode ser se acompanhado de uma dor? 

Musica do Dia 20-04-25


Emmit Remus - Red Hot Chilli Peppers

Californication - 1999



quinta-feira, 20 de março de 2025

 

O que me conforta, dia após dia, são as horas de agonia,

Sem forma e sem cor, de tempos em tempos, todos os dias.

Em teus trilhos andamos - és lei regente nos principados.    

Aos teus gatilhos levamos esta vida de seres agoniados.

Somos filhos, recordamos, de outrem também amaldiçoado.


Se alimenta ferozmente da inércia, sentimento familiar.

És reles dor e trauma; a ansiar move-me a ampliar,

Vícios, falhas e fraquezas com seu constante afagar.

Guiados por ti seguimos, com certeza de rumo e destino.

Confortamo-nos na paz de finalmente ter tino.


Temo quedar-me um dia sem ti. Aos meus instrumentos.

Tenho que estar vivo por ti, como norma do pensamento.

És ordem. Prescrita pela insatisfação do pensar,

Me impedes, bendita, de afogar-me em meu mar.


Tu tornas o caminho claro - torções sem opções.

Sem escolher ou decidir, sou ser, sem convicções.

Te sustento em dia e faz-te minha guia,

És doce e íntima, ó querida agonia.

terça-feira, 11 de março de 2025

nesta etapa de nosso encontro,

me encontro de face a um confronto.

o verbo, em encontro proibido,

em confronto com afeto contido.


rapidamente, surgem-me as memórias

de um passado que me recorda do futuro.

subitamente, tomam-me as estórias

de um passado feito firme como um muro.


Enfrento, empoleirado entre paixão suspensa,

Uma expressão qual precipitação é ofensa.

Temo, num deslize gritar a atração intensa,

E trazer ao nada a nossa devoção imensa.


Ante o medo, em coragem decido,

Mergulhar cedo neste amor medido.

Ouço, atento, aguardando o ecoar,

recorda-me, teu silêncio, o fardo de amar.

sábado, 8 de março de 2025

Tempo, a ti suplico

Tempo, a ti suplico:
Uma pausa.
Que seja curta,    
Seja apenas pausa.

Dá-me um pouco de ti,
Ao meu usufruto.
Deixa-me, enfim, sentir,
Posse do minuto.

Sem o tic nem o tac,
Por um breve momento,
O presente em destaque,
Dá-me, enfim, um alento.

Expulsa-me de teu domínio,
Ó tempo, rei inexorável.
Teu poder é demais exímio,
E viver em ti, inevitável.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Z Deli Restaurante

    Depois de um longo domingo, que sucedeu um também longo sábado de cozinha, cortes e queimaduras, os cozinheiros se encontraram no novo Z Deli Restaurante e Delicatessen.    
    Com duas horas de sono no bolso esquerdo e dez horas de trabalho no bolso direito, cheguei ao local e me deparei com uma calçada repleta de seres famintos, alguns de pé conversando, alguns sentados imobilizados pela fome mas todos roíam as unhas esperando por uma mesa. Achei bom sinal. Eu havia chegado antes dos meus colegas e não estava a fim de esperar sozinho. Resolvi dar uma volta pelo bairro para averiguar se esse movimento estava se replicando nos outros restaurantes ou se era exclusivo ao Z Deli e, ao encontrar apenas salões desertos e garçons entediados, minha expectativa aumentou. Retornei ao restaurante e lá encontrei alguns dos meus conhecidos que chegaram nesse meio tempo.
    Quando você dá o seu nome para uma hostess inundada por Felipes de 4 lugares, Marias de 2 lugares e Marcos de só um banquinho no bar se possível, você se conforma em ficar de pé por pelo menos uma hora assistindo, ouvindo e criando expectativas em cima do restaurante. Normalmente este momento de espera é uma penitência; desconforto geral, fome, sede, inveja dos que comem, inveja dos que são chamados, aquela pessoa também de pé e também com fome e sede mas que consegue ser insuportável e falar alto demais e tudo te irrita. A fome te consome, você se animaliza por completo e começa a clamar silenciosamente por comida e conforto, principalmente conforto. Acima de tudo você quer se aconchegar. No Z Deli a espera foi agradável, montaram uma mesa na calçada e nos trouxeram águas de cortesia.
    Entramos no restaurante por volta das 8 horas. Logo com os primeiros passos para dentro do salão você se encontra dentro de um apartamento de um prédio antigo da Cerqueira César; madeira envernizada, luz amarela indireta, paredes repletas de arte e fotografia, cortinas escuras e grossas, metais com detalhes em dourado e um bom gosto geral, você pensa: Sou um conviva de uma família de judeus.    
    O cardápio é sintético e, o mais importante de tudo, físico, palpável, real. Uma folha de cartão revestida em plástico, a qual você pode tocar, cheirar e sentir os dedos engordurados das pessoas que foram felizes antes de você. Também, é claro, você pode escolher o que quer comer. E nós escolhemos. Comemos todas as entradas (não me lembro se foram 8 ou 9) e, como testamento de um ótimo restaurante, todas estavam impecáveis Pratos simples com propostas e objetivos claros e concisos, comida inteligente, não tenta ser mais do que é e também não deixa desejar. Os destaques foram o kibe cru, as pastas, o patê de fígado, o hommus e a alcachofra. Houve um prato, no entanto, que causou uma divisão na mesa; o simples e introvertido, porém clássico, matzo ball. Uma bola insípida de textura esponjosa se banhando em caldo de frango. Eu gostei, achei refinado, compreendi o seu papel e o acolhi de mente (e boca) aberta. Ele serve um paladar afetivo e específico; um prato leve e equilibrado para acalmar a fome e abrir o apetite.
    Enquanto comíamos fomos atendidos por uma equipe de salão rápida e atenciosa, é claro, servir pessoas domingo à noite requer muita vontade e paciência. Eu pessoalmente não conseguiria. Nada foi perdido ou esquecido pela equipe de salão. O bom garçon é como o bom árbitro de futebol: invisível. Ele faz com que as coisas ocorram com fluidez e deixa a comida ser o astro da noite. Pedi um drink de coentro e maçã verde incrivelmente barato (em um restaurante upscale no Jardins nunca se espera pagar menos do que 45 reais em um drink), por 33 reais estava tomando uma bomba de coentro equilibrada com gin e maçã verde, recomendo para aqueles que, assim como eu, vivem pelo coentro.   
    Depois de passarmos uma boa hora e meia comendo, decidimos que era o momento de comer ainda mais. Estava na hora dos pratos principais. Tivemos o prazer de sermos gracejados pela Chef com um interlúdio de pastrami, batatas fritas, picles, mostarda, coleslaw e mais pastrami, este, que estava muito bem temperado, gritava "aqui as pessoas me fazem com carinho" e foi um sopro de alívio para o cidadão paulistano que sofre em achar um bom pastrami. Este interlúdio foi rapidamente devorado, abrindo espaço para pedirmos mais coisas. A Chef nos sugeriu o Farfel, pedimos dois para a mesa e mais três outros pratos: o chorizo, o canelone e o cholent. O farfel e o canelone foram as estrelas; colagenudo, temperado e com fregula cozida corretamente, o farfel entrega uma ideia redonda e completa, recomendo. O canelone fez os olhos de todos brilharem quando chegou na mesa, o molho de tomate vivo, fresco e vibrante contrastava muito bem com o queijo gratinado e o recheio verde, recomendo. O cholent estava bom, tão bom quanto um braseado de carne, batata e feijões pode ser, um verdadeiro caldo restaurador, teria caído melhor em um daqueles dias dolorosamente gelados de São Paulo, peça se estiver frio e se já tiver provado o farfel e o canelone. O chorizo é um prato tradicional de carne, fritas, bearnaise e um incrível purê de espinafre; sem firulas, pirotecnias e inovações serve muito bem o seu papel de prato obrigatório de carne, recomendo.
    Depois de mais de 3 horas comendo e bebendo, não tivemos coragem (nem espaço) para pedir sobremesa e apenas pagamos a conta. Incrivelmente barata, pagamos 150 reais por pessoa e fomos embora já querendo retornar.
    O Z Deli, na esquina da Lorena com a Haddock, oferece uma experiência aconchegante, confortável e intimista de verdadeira comensalidade. Sentado nos assentos confortáveis e rodeado por uma decoração bem feita, você esquece que é cliente de um restaurante e se sente no lar de um querido amigo. Você come bem, bebe água de graça e é muito bem introduzido à cozinha Yiddish. Se ainda não foi, coloque no topo da sua fila de restaurantes e vá, mas vá cedo porque ele está no topo da fila de muita gente.