Fiz o vídeo referente aos textos "Penso que penso demais" e "À lua querida". Quis representar o caráter sórdido da vida do homem que se tornou egoísta por falta de opção. A referencia do texto é como sempre Fernando Pessoa, nesse caso sua obra ortônima "Furia nas trevas o vento". A referência de imagem é novamente "Det Perfekte Menneske" que não consigo tirar da minha cabeça. A música é Lagrima de Francisco Tárrega com um efeito pesado de reverberação.
quarta-feira, 28 de junho de 2023
segunda-feira, 19 de junho de 2023
Penso que penso demais
Penso que penso demais
Penso e não cesso
Penso, penso e penso
Penso no penar de pensar sem cessar
Penso no penar de cessar de pensar.
Penso antes de falar e perco a voz
Penso antes de fazer e perco a vez
Penso agora que as vezes não penso
Penso agora que as vezes eu falo
Penso agora que as vezes eu faço
Penso que viver me faz pensar
Penso enquanto vivo que hei de pensar
Penso que temo viver porque temo pensar
Penso que sem viver só me resta pensar
Penso porque penso e odeio pensar.
À lua querida
O dia se foi, e a noite chegou.
Penso sobre o dia.
Tinha tanta coisa pra fazer,
não fiz.
Tanta luz para aproveitar,
não aproveitei.
De noite já está tudo fechado,
frio, escuro e dormente.
Inundado na escuridão reflito,
lembro do dia ter sido muito lindo,
quente, claro e vívido.
Durante o dia não lembrei de fazer nada,
apenas vivi o calor a claridade e a nitidez.
Sorri e me sorriram de volta,
abracei e me abraçaram de volta,
amei e acreditei me amarem de volta.
Agora que o sol já foi, penso:
o dia foi curto demais.
Agora que eu só estou, penso:
a noite será longa demais.
Não quero dormir.
Não posso perder esse dia.
Quero ficar nessa noite para sempre,
esperando o sol voltar.
quarta-feira, 31 de maio de 2023
segunda-feira, 29 de maio de 2023
Trechos "A poesia e o Microfone"
sexta-feira, 26 de maio de 2023
terça-feira, 23 de maio de 2023
Pato meu amigo
Pato meu amigo,
Pato meu grande companheiro,
Pato, você que nada.
Pato, você que voa.
Pato, você que sem uma pata apenas manca.
Meu amigo pato você é muito superior a mim.
Você é muito melhor do que eu.
Eu, que mal nado,
Eu, que apenas sonho em voar,
Eu, que por todas as patas choro.
Pato sua vida é tão simples.
Pato sua vida é tão boa.
Pato meu amigo quem sabe um dia voarei contigo.
quarta-feira, 12 de abril de 2023
Muletas Pirotecnicas
"Viraliza nas redes sociais o relato de uma espectadora do show da cantora Ludmilla no Lollapalooza Brasil, que ocorreu nesse sábado (25/3), em São Paulo. Ela contou que teve parte do cabelo queimado na apresentação, o que pode ter sido causado pela pirotecnia utilizada no show, além do calor no ambiente."
A melhor apresentação que já vi foi de Yamandu Costa em um teatro, o palco: Uma cadeira, um banco e um chimarrão. O poder da sua apresentação é a música, afinal ele é um músico e não um especialista em luzes e pirotecnias. Um homem e um violão preencheram um teatro de 700 lugares de forma que mal se respirava, não se olhava pro lado e se chorava muito.
A pior apresentação que já vi foi de Mc Kevinho na lúcio de 2019 no Canindé, o palco; lotado de pessoas, pirotecnias e luzes. O poder da sua apresentação não é a música, apesar dele ser um musico e não um especialista em luzes e pirotecnias. Um homem, um microfone, um Dj e uma comitiva ficaram minúsculos dentro do palco, só se olhava pro lado.
Lança chamas, fresnéis giratórios, canhões de confete e seres priápicos dançando surgem nos palcos como distraçã para que o espectador não entre em um buraco de autocomiseração pensando que pagou 500 reais para escutar 4 acordes (no máximo) e uma percussão digital. Enquanto o espectador estiver focado em bundas e luzes ele não estará focado na música horrível que está sendo bombardeada "guernicamente" sobre sua cabeça
É extremamente injusto e pedante chamar qualquer tipo de arte popular de ruim, o que eu realmente quero dizer é que assim como um tumor no cérebro é um grande indicador de um possível câncer, pirotecnias são indicadores de algo ruim. Um ótimo exemplo é o cinema, no qual essa discussão já foi abordada ad nauseam pelos dinamarqueses que buscavam produzir filmes da forma mais orgânica possível sem render temas visuais apelativos como tiroteios. O que eles fizeram foi perguntar, de forma muito dadaísta, o que de fato compõe um filme e até que ponto certos fatores existem apenas para adormecer o espectador.
Assim como tudo no nosso mundinho frívolo, nada é uma máxima. Existem filmes ótimos pautados em sexo e tiroteio assim como existem músicos incríveis que decidem ter shows mais "divertidos". Mas se você um dia se encontrar duvidando sobre quão bom algo é, separe o nuclear do acessório e analise, o canhão de confete está afinado? O lança chamas está em La Bemol ou La natural? Ou será que o confete e o lança chamas estão ali apenas apoiando uma indústria autolísica? O bom é objetivo à sua experiência, descubra-o e aplique-o.
terça-feira, 28 de março de 2023
A obra de arte na era de sua reprodutibilidade acadêmica
Nada pior do que arte careta, arte chata, arte antiga, arte cansada, arte de gente morta, vivíssima de corpo e abiótica de espirito e sensibilidade. Nada pior do que arte produzida dentro de uma faculdade. Nada pior do que arte acadêmica produzida sob as rédeas de um déspota que a massa de artistas mortos chama de "professor".
Os temas são sempre os mesmos, os motivos não mudam, os métodos estão tão engessados na estrutura acadêmica que o que eles produzem é condensado em capsulas e vendido na farmácia sob o rótulo de hemitartarato de zolpidem 5mg.
A via óbvia de pensamento seria de creditar essa equidade coprófila ao fato de todos os estudantes, enquanto na faculdade, sempre viverem vidas semelhantes em que tudo acontece praticamente ao mesmo tempo e do mesmo jeito. O problema desta visão é que ela confere ao estudante um certa inanição mental injusta. Eu acredito que esse estudante tem a capacidade para se expressar sinteticamente e de forma sensível ao ponto de produzir uma bela obra de arte, o problema é a instituição. Produzir arte à guisa de uma instituição significa produzir arte institucional, e nada pior do que arte institucional.
O meu exemplo favorito (e o único que conheço) de um estudante que produziu algo com valor dentro de uma faculdade foi o Rafael "Pixobomb" que invadiu a Belas Artes da rua Álvaro Alvim (atrio de pseudo-artistas infelizes fadados ao fracasso) com diversos conhecidos pixadores e detonaram uma exposição de arte institucional. Um verdadeiro ato artístico, um excelente "happening"! Prontamente Rafael foi expulso da faculdade e libertado do arcadismo acadêmico.
O que de fato dentro da instituição provoca essa inanição mental? Posso falar por experiência própria. Quando você entra na faculdade de artes seu circulo se preenche de aspirantes a artistas que fazem apenas isso, aspiram. Aspiram um dia poder viver como Roman Polanski tendo orgias em Hollywood e estuprando a própria esposa como um ato de "liberdade sexual". Quando um X só olha pra cima, X não olha para si mesmo e, X, perde sua personalidade na maré da instituição. Robert Pirsig já discutiu de forma muito melhor sobre como a instituição interfere na busca pela qualidade (leia "Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas"). O importante para quem está dentro da uma faculdade é o diploma e o networking porque de fato é para isso que a faculdade serve, e então, a arte se torna isso: O trabalho da faculdade, "Um videozinho que eu fiz pra aula", "Tinha que pintar uns negócios pra aula". E assim esse estudante trai a sua própria sensibilidade em troca do sucesso acadêmico.
A forma de se livrar dessa nuvem preta que assombra qualquer coisa que você produzir é abandonar a faculdade de artes, vá trabalhar, vá viver uma vida normal, conhecer pessoas que pensam diferente de você, converse com pessoas que odeiam seu filme favorito e tente entender, consuma consuma e consuma, com 20 ainda não vivemos o suficiente para sermos artistas, viva e a arte virá de forma natural.
O problema é também severamente social. A necessidade desvairada de pertencer e o medo de ser deixado sozinho são muito presentes dentro das faculdades de arte mas esse é um tópico muito inflamado e sensível que não ouso me aprofundar.
Não ouse discordar, não ouse julgar, não ouse ser honesto e acima de tudo não ouse lembrar os pseudo-artistas que eles nunca serão subversivos dentro de uma faculdade que custa mais de 60 mil reais por ano, eles estão dentro da instituição, eles alimentam a instituição, eles são a instituição, por mais que eles vistam suas diversas mascaras liberais, dentro da instituição você sempre será careta e não existe nada pior do que arte careta.
domingo, 26 de março de 2023
O panóptico nosso de cada dia
Eu não me aprofundei o tanto quanto queria em Foucault e Deleuze mas sei de certo modo que o objetivo do panóptico não é de fato observar os prisioneiros mas sim lembrá-los de que eles estão sendo observados e assim submetidos inconscientemente a uma doutrina de subordinação. Você nunca vê o guarda e algumas eventuais ações do guarda o levam a acreditar que ele sempre te observa.
Quem é o guarda, em qual torre ele fica e quem são os prisioneiros do contexto em que vivemos? Nós definitivamente somos os prisioneiros que embrenhados em uma profunda e inescapável tecnocracia também nos tornamos o guarda. Isso é o básico que qualquer aluno de comunicação que se preze aprende no primeiro semestre de qualquer faculdade decente. Há porém uma discussão pertinente e interessante a ser feita em relação a perduração do controle das instituições.
Quando Assange e Snowden são presos por liberar arquivos confidenciais que demonstram a facilidade na qual instituições clássicas da sociedade disciplinar conseguem espionar o cidadão médio surgem duas revoltas; "Os criminosos não são Assange e Snowden" e "O governo está me observando". Muita força é creditada ao panóptico, se antes se duvidava que uma sociedade como a de 1984 pudesse existir, agora há uma confirmação. Faça um simples exercício de pensamento e tente imaginar o espaço físico necessário para armazenar tudo de tangível que ocorre na internet. Ainda não atingimos esta tecnologia, as agências governamentais não têm esse poder de armazenamento, mas isso não importa, o importante é acreditarmos que o guarda sempre pode nos ver e que o japonês da federal sabe os seus mais íntimos fetiches.
Quando pessoas são "canceladas" (paralelo cômico com "vaporizadas") porque em 2009 tuitaram uma triste palavra de 5 letras, ergue-se em meio as redes sociais uma enorme torre de vigia e as pessoas passam a se comportar conforme o que é "correto". "Eu ia expressar algo genuíno e real que eu sinto para aqueles que eu conheço mas temo que isso possa acatar no meu desemprego". Essas contribuições recorrentes de usuários agindo dentro do "correto" agregam mais valor ainda a mística da subordinação, "se todos estão agindo assim é porque deve ser mesmo o jeito certo de agir.".
Nós, insignificantes, massa trabalhadora, estudantes e pessoas que apenas aspiram, vivemos a pescar palavras a esmo porque tememos o eco de um martelo que bate apenas no outro lado do vale, nós escutamos esse martelo diariamente ressoando pelas montanhas e de vez em quando ele fica mais forte indicando uma certa aproximação, inevitavelmente ele sempre retorna ao outro lado do vale. Nós, a maioria, cidadãos normais, estamos tão baixos que o guarda teria que pôr a cabeça para fora da torre de vigia para conseguir nos ver.
Diga o que quiser, compre drogas pelo correio, dirija levemente bêbado (é divertido) e não tenha muito medo porque afinal das contas, somos insignificantes demais para movimentar agencias governamentais. Há um certo solipsismo em pensar que não existam pessoas mais importantes para serem observadas. Isso tudo porém, só vale se você não for importante... e como saber se você é importante? Sendo pego.