caneta pincel e caneta ponta fina em papel pólen
18/6/2025
Derramo por ti diárias libações lacrimosas,
e a mim nada retornas, ó deus tão maligno.
Tu, que a todos compele, menos a mim, diga:
por que quanto mais devoto a ti sou,
mais odioso a mim tu és?
Sejais grato e reconheças tu o meu esforço.
Me diga, então, tu, ó deus, se és como o Amor,
que se faz mais escuro quanto mais é iluminado,
e que se codifica ao passo de ser decifrado.
Me diga:
que busca na devoção a simples vida vivida
de seu maior fiel,
em contraste à vida conduzida pela refrega do pensamento
de seu maior pecador?
Confirma, e serei temente.
Serei temente, pois já no amor falhei,
tentado nomear cada olhar, cada abraço,
cada gesto e cada palavra.
Confirma e restará a mim, enquanto temo,
arranjar pouso nas palavras tenras, doces,
e fatalmente solitárias,
que tudo podem explicar, mas nada podem amar.
Espelho companheiro que vive
dependurado na fria parede de meu banheiro,
quantas vezes já não me viste?
Quantas vezes já não me vistes, em mil vestes, me vestir?
De quantas versões tão tristes as aversões já não reprimistes?
Tu, que demonstras de forma fiel minha imagem em pura cópia,
de nada tens culpa.
Se fosse eu árvore, mostraria árvore;
se fosse eu montes, mostraria montes.
Sou, no entanto, eu, e mostra-me eu.
De forma fiel, minha imagem em pura cópia
e de nada tens culpa.
Tenho eu, então, toda a culpa
pois a mim em ti não vejo.
Vejo baixo, reles, vil,
quando aponta para mim meus olhos
e o terror se apronta em mim.
Entenda pois, espelho amigo,
contigo não estou acabrunhado;
afinal é tentando ver a mim mesmo
que meu sobrolho fica carregado.
Hoje é meu aniversário, 25 anos. Dizem que é o primeiro quarto da vida, isso considerando uma rara vida de 100 anos... Diria que já é um terço da vida que já passou. Isso faz pensar, e muito. Mas já se foram os dias nos quais os aniversários eram agonizantes e cheios de dúvidas que me levavam a odiar os aniversários. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu não sabia quem eu era, não sabia quem eu queria ser e tinha medo de quem eu seria. No dia em que festejavam o dia dos meus anos eu era criança, perdida, indefesa.
O dia de hoje, dia dos completos 25 ciclos, é marcado por maturidade, solidez e fundação. Hoje não tenho agonias, dúvidas ou ódio pelo deus atroz; tenho vontade de ver depressa o que virá ao que finalmente sou e inevitavelmente serei. Pois à parte de todos os poréns e "e se"s, está o único e exclusivo caminho da vida que impera sobre todas as encruzilhadas e este caminho é inevitável. Hoje, depois de 25 anos, já não tento mudar este caminho, apenas tenho me preparado para traçá-lo. Vivo hoje, acima de tudo, pelo amor incondicional à perfeição da experiência humana e nada peço, pois sei que tudo que hei de ter, terei quando houver de ter.
Tornar-te ás só quem tu sempre foste.
O que te os deuses dão, dão no começo.
De uma só vez o Fado
Te dá o fado, que és um.
A pouco chega pois o esforço posto
Na medida da tua força nata -
A pouco, se não foste
Para mais concebido.
Contenta-te com seres quem não podes
Deixar de ser. Ainda te fica o vasto
Céu pra cobrir-te, e a terra,
Verde ou seca a seu tempo.
Ricardo Reis 05/1921
São Paulo, 26 de Maio de 2025
As semanas só são semanas porque um dia se tornaram semanas e de efetivo imediato instituíram controle sobre o passar dos dias, os dias são ressignificados; o sol de terça-feira não ilumina o solo das quartas-feiras. Nos apresentamos aos dias de forma regida pelo dia. Estranhamos os dias os quais nos apresentamos ao dia errado. Eu, me contorcendo em um sábado me sentindo a segunda-feira, causa atrito. Estranhamento. Desfoque
-----
São poucas as vezes em que o ganso não enche o bucho de grama, caminha pelo lago, repousa seu bico em sua asa, caminha mais um pouco, nada um pouco no lago, se refresca, come um pouco mais de grama, toma um pouco de sol, levanta a cabeça e olha altaneiro para o horizonte apenas para voltar o seu bico para o repouso de sua asa, se levanta, abana as asas, caminha lentamente para uma mão, humana, verdadeiramente humana, que carrega um pedaço de pão de forma, doce ó doce pão de forma, como é doce para o ganso deglutir o pão de forma, ele chega perto da mão e o corpo, que imerecidamente carrega uma mão tão humana profere: vem pato vem. pão de forma patinho vem. O ganso para em seus trilhos, paralisado, imóvel, inexorável, encara a humana que lhe chamou de pato, levanta uma pata, a chacoalha e repousa a pata sobre o solo novamente, vê o pão repousando em uma bituca de cigarro, encara, imóvel, o pão por alguns segundos, vai até ele e o come. Quão doce pode ser esse pão? Este pão que sozinho seria tão doce, quão doce ele realmente pode ser se acompanhado de uma dor?
O que me conforta, dia após dia, são as horas de agonia,
Sem forma e sem cor, de tempos em tempos, todos os dias.
Em teus trilhos andamos - és lei regente nos principados.
Aos teus gatilhos levamos esta vida de seres agoniados.
Somos filhos, recordamos, de outrem também amaldiçoado.
Se alimenta ferozmente da inércia, sentimento familiar.
És reles dor e trauma; a ansiar move-me a ampliar,
Vícios, falhas e fraquezas com seu constante afagar.
Guiados por ti seguimos, com certeza de rumo e destino.
Confortamo-nos na paz de finalmente ter tino.
Temo quedar-me um dia sem ti. Aos meus instrumentos.
Tenho que estar vivo por ti, como norma do pensamento.
És ordem. Prescrita pela insatisfação do pensar,
Me impedes, bendita, de afogar-me em meu mar.
Tu tornas o caminho claro - torções sem opções.
Sem escolher ou decidir, sou ser, sem convicções.
Te sustento em dia e faz-te minha guia,
És doce e íntima, ó querida agonia.