segunda-feira, 29 de maio de 2023

Trechos "A poesia e o Microfone"

Irei salvar aqui trechos do ensaio "A poesia e o Microfone" de George Orwell publicado em março de 1945 no The New Pamphlet.

"Não há dúvida de que em nossa civilização a poesia é, de longe, a mais desacreditada das artes, a única, com efeito, em que o homem comum se recusa a discernir qualquer valor."(...)"A poesia não é vista com bons olhos porque é associada e ininteligibilidade, à arrogância intelectual e a um sentimento geral de domingo em dia de semana. Seu nome cria de antemão o mesmo tipo de má impressão que a palavra "Deus" ou um colarinho de pároco. Em certa medida, popularizar a poesia é romper uma inibição adquirida. É uma questão de fazer as pessoas ouvirem, em vez de emitir um apupo automático. Se a verdadeira poesia pudesse ser apresentada ao grande público de uma maneira que a fizesse parecer normal, como aquela porcaria que acabei de ouvir parecia presumivelmente normal, então parte do preconceito contra ela poderia ser superada."

"O problema é que, quanto maior se torna a máquina do governo, mais pontas soltas e cantos esquecidos aparecem nela. Trata-se, talvez, de um consolo pequeno, mas não desprezível. Significa que em países onde já existe um tradição liberal forte, a tirania burocrática talvez nunca chegue a ser completa. Os homens de calças listradas mandarão, mas, enquanto forem forçados a manter uma intelligentsia, esta terá certo grau de autonomia. Se o governo precisa, por exemplo, de documentários, tem de empregar gente interessada em técnica de cinema e precisa lhes dar o mínimo necessário de liberdade; em consequência, filmes completamente errados do ponto de vista burocrático terão sempre tendência a aparecer. O mesmo com a pintura, fotografia, redação de textos, reportagem, palestras e todas as outras artes e semiartes das quais um Estado moderno complexo precisa."

sexta-feira, 26 de maio de 2023

eu te amo,
mas não posso dizer.
eu te amo,
mas devo me conter.

nada me fez tão feliz quanto você,
mas não pude dizer.
larguei a mão de tudo,
e não deixo de sofrer.

Perdi meu emprego.
Meu aniversário passou batido.
Tudo ficou tão pequeno.

Você foi como uma estrela.
Tão linda, tão brilhante
e fatalmente distante.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Pato meu amigo

Pato meu amigo,

Pato meu grande companheiro,

Pato, você que nada.

Pato, você que voa.

Pato, você que sem uma pata apenas manca.

Meu amigo pato você é muito superior a mim.

Você é muito melhor do que eu.

Eu, que mal nado,

Eu, que apenas sonho em voar,

Eu, que por todas as patas choro.

Pato sua vida é tão simples.

Pato sua vida é tão boa.

Pato meu amigo quem sabe um dia voarei contigo.




quarta-feira, 12 de abril de 2023

Muletas Pirotecnicas

"Viraliza nas redes sociais o relato de uma espectadora do show da cantora Ludmilla no Lollapalooza Brasil, que ocorreu nesse sábado (25/3), em São Paulo. Ela contou que teve parte do cabelo queimado na apresentação, o que pode ter sido causado pela pirotecnia utilizada no show, além do calor no ambiente."

A melhor apresentação que já vi foi de Yamandu Costa em um teatro, o palco: Uma cadeira, um banco e um chimarrão. O poder da sua apresentação é a música, afinal ele é um músico e não um especialista em luzes e pirotecnias. Um homem e um violão preencheram um teatro de 700 lugares de forma que mal se respirava, não se olhava pro lado e se chorava muito.

A pior apresentação que já vi foi de Mc Kevinho na lúcio de 2019 no Canindé, o palco; lotado de pessoas, pirotecnias e luzes. O poder da sua apresentação não é a música, apesar dele ser um musico e não um especialista em luzes e pirotecnias. Um  homem, um microfone, um Dj e uma comitiva ficaram minúsculos dentro do palco, só se olhava pro lado.

Lança chamas, fresnéis giratórios, canhões de confete e seres priápicos dançando surgem nos palcos como distraçã para que o espectador não entre em um buraco de autocomiseração pensando que pagou 500 reais para escutar 4 acordes (no máximo) e uma percussão digital. Enquanto o espectador estiver focado em bundas e luzes ele não estará focado na música horrível que está sendo bombardeada "guernicamente" sobre sua cabeça

É extremamente injusto e pedante chamar qualquer tipo de arte popular de ruim, o que eu realmente quero dizer é que assim como um tumor no cérebro é um grande indicador de um possível câncer, pirotecnias são indicadores de algo ruim. Um ótimo exemplo é o cinema, no qual essa discussão já foi abordada ad nauseam pelos dinamarqueses que buscavam produzir filmes da forma mais orgânica possível sem render temas visuais apelativos como tiroteios. O que eles fizeram foi perguntar, de forma muito dadaísta, o que de fato compõe um filme e até que ponto certos fatores existem apenas para adormecer o espectador.

Assim como tudo no nosso mundinho frívolo, nada é uma máxima. Existem filmes ótimos pautados em sexo e tiroteio assim como existem músicos incríveis que decidem ter shows mais "divertidos". Mas se você um dia se encontrar duvidando sobre quão bom algo é, separe o nuclear do acessório e analise, o canhão de confete está afinado? O lança chamas está em La Bemol ou La natural? Ou será que o confete e o lança chamas estão ali apenas apoiando uma indústria autolísica? O bom é objetivo à sua experiência, descubra-o e aplique-o.