domingo, 19 de novembro de 2023

quem sabe no dia em que eu morrer

e voce for pensar em tudo que fiz

quem sabe nos dias em que voce lembrar

voce verá que nao terei feito muito


não terei sido ultimo nem primeiro

não terei explorado o espaço

não terei morrido em grandes batalhas

mas terei andado muito de metrô


eu sei que nos dias em que voce lembrar

verá tudo que trilhei

que se minha vida chegou em algum lugar

foi andando de metrô

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

 Tenho a constante sensaçao de que habito uma dimensao espelhada na qual as pessoas existem mas eu nunca as encontro, seus copos sujos aparecem na pia mas não vejo ninguem beber agua, como seu eu estivesse pilotando um carro em uma corrida que eu não faço parte. Claro que as pessoas existem, claro que as pessoas existem. Claro que as pessoas existem e claro que eu sou uma pessoa também. 
Olhar para carros não é o mesmo que olhar para pessoas, eu devo olhar para milhares de carros diferentes todos os dias, figuras monoliticas acelerando monotonamente e fatalmente sempre para a frente dentro de um limite que não existe em lugar nenhum sequer na consciencia humana. Os carros não são pessoas, é claro. Os carros são carros e as pessoas são pessoas. A lei não se materializa diretamente, como toda boa decisão humana ela se materializa como dor, do suplício a ulcera vivemos e morremos pelo limite.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

O homem feliz é uma árvore seca,

ágil e leve, dado e moldado aos ventos.

Uma árvore sem seiva e sem raízes.

É ágil de vazio e leve porque já morreu.

O homem feliz, desfolhado, não sente o sol,

é um puleiro sem ninhos, o homem feliz.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

limbo

meu coração não acelera faz tempo,

minhas mãos não tremem faz tempo,

há algo de errado comigo,

me sinto estranho.


sobretudo minhas emoções desistiram.

a dor enfim se dissipou em um morno

luto intermitente pelas emoções.


choro por não ter por que chorar.

rio por tudo ser tão maçante.


não vejo nada além do amanhã.

não lembro de nada além do ontem.



quarta-feira, 28 de junho de 2023

Penso

 Fiz o vídeo referente aos textos "Penso que penso demais" e "À lua querida". Quis representar o caráter sórdido da vida do homem que se tornou egoísta por falta de opção. A referencia do texto é como sempre Fernando Pessoa, nesse caso sua obra ortônima "Furia nas trevas o vento". A referência de imagem é novamente "Det Perfekte Menneske" que não consigo tirar da minha cabeça. A música é Lagrima de Francisco Tárrega com um efeito pesado de reverberação.



segunda-feira, 19 de junho de 2023

Penso que penso demais

Penso que penso demais

Penso e não cesso

Penso, penso e penso

Penso no penar de pensar sem cessar

Penso no penar de cessar de pensar.


Penso antes de falar e perco a voz

Penso antes de fazer e perco a vez

Penso agora que as vezes não penso

Penso agora que as vezes eu falo

Penso agora que as vezes eu faço


Penso que viver me faz pensar

Penso enquanto vivo que hei de pensar

Penso que temo viver porque temo pensar

Penso que sem viver só me resta pensar

Penso porque penso e odeio pensar.


À lua querida

O dia se foi, e a noite chegou.

Penso sobre o dia.

Tinha tanta coisa pra fazer,

não fiz.

Tanta luz para aproveitar,

não aproveitei.


De noite já está tudo fechado,

frio, escuro e dormente.

Inundado na escuridão reflito, 

lembro do dia ter sido muito lindo,

quente, claro e vívido.


Durante o dia não lembrei de fazer nada,

apenas vivi o calor a claridade e a nitidez.

Sorri e me sorriram de volta,

abracei e me abraçaram de volta,

amei e acreditei me amarem de volta.


Agora que o sol já foi, penso:

o dia foi curto demais.

Agora que eu só estou, penso:

a noite será longa demais.


Não quero dormir.

Não posso perder esse dia.

Quero ficar nessa noite para sempre,

esperando o sol voltar.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Estou dirigindo e está tudo borrado,

o limpador de para brisa esta quebrado.

Acho que não tem problema dirigir assim.


Caio em buracos,

dou umas derrapadas,

enfio o carro em um poste.


Estava dirigindo e estava tudo borrado,

o limpador de para brisa continua quebrado,

mas nunca choveu.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Trechos "A poesia e o Microfone"

Irei salvar aqui trechos do ensaio "A poesia e o Microfone" de George Orwell publicado em março de 1945 no The New Pamphlet.

"Não há dúvida de que em nossa civilização a poesia é, de longe, a mais desacreditada das artes, a única, com efeito, em que o homem comum se recusa a discernir qualquer valor."(...)"A poesia não é vista com bons olhos porque é associada e ininteligibilidade, à arrogância intelectual e a um sentimento geral de domingo em dia de semana. Seu nome cria de antemão o mesmo tipo de má impressão que a palavra "Deus" ou um colarinho de pároco. Em certa medida, popularizar a poesia é romper uma inibição adquirida. É uma questão de fazer as pessoas ouvirem, em vez de emitir um apupo automático. Se a verdadeira poesia pudesse ser apresentada ao grande público de uma maneira que a fizesse parecer normal, como aquela porcaria que acabei de ouvir parecia presumivelmente normal, então parte do preconceito contra ela poderia ser superada."

"O problema é que, quanto maior se torna a máquina do governo, mais pontas soltas e cantos esquecidos aparecem nela. Trata-se, talvez, de um consolo pequeno, mas não desprezível. Significa que em países onde já existe um tradição liberal forte, a tirania burocrática talvez nunca chegue a ser completa. Os homens de calças listradas mandarão, mas, enquanto forem forçados a manter uma intelligentsia, esta terá certo grau de autonomia. Se o governo precisa, por exemplo, de documentários, tem de empregar gente interessada em técnica de cinema e precisa lhes dar o mínimo necessário de liberdade; em consequência, filmes completamente errados do ponto de vista burocrático terão sempre tendência a aparecer. O mesmo com a pintura, fotografia, redação de textos, reportagem, palestras e todas as outras artes e semiartes das quais um Estado moderno complexo precisa."

sexta-feira, 26 de maio de 2023

eu te amo,
mas não posso dizer.
eu te amo,
mas devo me conter.

nada me fez tão feliz quanto você,
mas não pude dizer.
larguei a mão de tudo,
e não deixo de sofrer.

Perdi meu emprego.
Meu aniversário passou batido.
Tudo ficou tão pequeno.

Você foi como uma estrela.
Tão linda, tão brilhante
e fatalmente distante.