domingo, 24 de novembro de 2024

essas coisas só acontecem comigo parte 1

Quando digo "essas coisas só acontecem comigo" eu esqueço que elas devem acontecer com todo mundo porém só a mim me conferiram o fardo de ser extremamente chato e anal no que diz respeito ao SERVIÇO. Me formei cozinheiro dentro de um restaurante de extremo rigor onde a excelência de serviço tinha que se manter em padrões mundiais. O gringo vinha ver todo dia. Desse lugar, além dos traumas e constante dúvida sobre minha escolha de profissão, pude tirar um aprendizado gigantesco sobre serviço, sobre o que é certo e o que é errado. Por mais que muitas pessoas hoje em dia acham que existe um pós-certo e que as coisas devem ser descontraídas e que a vida é linda e os rios são azuis e as folhas são verdes, o cliente, que escolhe por livre e espontânea vontade gastar o dinheiro dele com o seu serviço, deve ser tratado da melhor maneira possível. AGORA ME DIZ, porque que eu sento NO BAR, tem DOIS BARMANs atrás do BAR (ONDE ESTOU SENTADO) e quando o BARMAN começa a me atender ele é INTERROMPIDO por um GARÇON que me pergunta se eu já fui atendido. 
Acabei pedindo para o garçon mesmo uma vez que o barman se retirou com cara de gastrite após ser interrompido pelo querido funcionário do salão (detalhe: o garçon, que trabalha em um bar UPSCALE, não sabia o que era Whiskey Sour). Bar vazio. O garçon foi até o outro barman e pediu o meu drink para ele. O drink foi feito do outro lado do bar enquanto os dois barmans reclamavam em voz alta sobre o trabalho. Quando o drink ficou pronto, o barman o entregou para o garçon que então me trouxe o drink NO MESMO BAR em que ele foi feito. Vou DESENHAR porque não tenho a capacidade de expressar algo tão RIDICULO apenas em palavras:

O drink chegou e, para a surpresa de ninguém, estava horrível. Parecia uma limonada aguada com espuminha. Tomei o drink em 3 goladas, agradeci muito pelo ótimo drink e fui embora.
Isso acontece com todo mundo, todos os dias, acontece que eu nasci chato, muito chato, muito chato mesmo e, por consequência disso, sofro todos os dias em que saio de casa. Não acho que ninguém tem que melhorar, na verdade prefiro que piorem e facilitem a competição nesta indústria selvagem, mas eu precisava desabafar. Funcionou, estou mais tranquilo. À partir de hoje irei relatar aqui, neste blog, todas as vezes que eu pensar "essas coisas só acontecem comigo"




sábado, 23 de novembro de 2024

mens inimicus

Meu maior inimigo desde que me tornei um ser pensante tem sido ser pensante. De todos os tigres, cobras e desastres naturais dos quais nos separamos enquanto espécie, nos restou o mais perigoso de todos os predadores, a nossa própria mente. Perfeitamente adequada para manter-nos de pés e mãos atadas à gorar por um constante conforto da pausa no ser, perfeitamente adequada para se manter em um vácuo de decisões que não decide mudar o que vem e muito menos compreender o que se foi. 

A nossa mente animal busca sempre o decrescimento das conquistas do ego, simplificar e reduzir as responsabilidades que alarmam incessantemente os gatilhos da sobrevivência selvagem. Viver e trabalhar em conjunto nos faz agir priorizando a aprovação do outro à aprovação e contentamento interno, manter-nos aceitos dentro da aldeia é uma garantia de vida maior do que qualquer melhora pessoal. O cinto segura a calça que segura o cinto e assim em diante construímos uma falsa sensação de estabilidade em cima de uma fraca fundação de si. 


 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Arte como materialização da consciência humana

Tudo que vemos, tudo que nos é apresentado e tudo que nos está disponível para experimentar e interagir que tenha sido fruto da necessidade hercúlea do homem de transferir sua mente para o mundo das coisas tangíveis, deve ser chamado de arte.

Vigas, tijolos, asfalto, microchip, cadeiras, barcos e tudo que o homem constrói vem de sua consciência, tudo teve de ser pensado antes de existir, portanto, um prédio representa a mente humana assim como o homem se expande na sua casa e torna cada canto, esquina e curva em si mesmo. Decorações, aromas, e retoques são todas formas de agregar a nossa própria consciência ao mundo material (também fazemos isso com outros humanos). 

A arte está incluída no grupo das antropias e portanto é também uma representação da mente humana, inclusive, seu objetivo é justamente esse e única e exclusivamente esse. Fazemos arte porque precisamos desesperadamente materializar um sentimento e não importa o meio de expressão ou qualidade da obra, toda expressão artística é um fragmento da consciência humana. Conhecemos uns aos outros pela arte, perguntas sobre filmes, musicas e livros favoritos são tão costumeiras porque dizem muito sobre quem as responde.

A soma total de todas as artes é, em suma, O ser Humano. Um museu de arte contemporânea nada mais é do que um mostruário para quem estamos sendo. A arte é vista como o método humano de se apresentar a alguma consciência terceira; fazemos artes e colocamos as melhores em museus para causar certa impressão em quem as vê. Um Mondrian (que qualquer um faz essa merda que bosta de quadradinho colorido) ser vendido por milhões de dólares não afeta a vida de uma pessoa comum que fica com raiva ao saber que alguém pagou milhões de dólares em alguns quadrados coloridos, ela só se sente mal representada, ela sente que aquela expressão do Mondrian que está recebendo atenção não ressoa com seus próprios sentimentos e por isso eles não são válidos. 

A arte moderna "abstrata", muitas vezes não compreendida serve como a representação de uma sociedade na qual o bonito objetivo não faz sentido. Qual a relevância de um lindo bosque florido para a psique de uma sociedade que vive em constante medo? Por outro lado, uma sociedade que viveu por centenas de ano vivenciando os períodos mais sombrios da experiência humana implorava pela beleza e pela materialização de um mundo em que as lindas árvores verdes sombreiam os floridos e vivos lagos azuis. 

Resta a nós, massa humana, o dever de prestar atenção. Entender arte é entender o seu contexto e, estar conectado com a arte na sua máxima vanguarda é estar sobriamente vivo dentro de seu próprio contexto. Somos humanos, vivemos e nos expressamos em conjunto e nossa saúde depende disso. Compreenda para expressar e expresse para compreender.

domingo, 19 de novembro de 2023

quem sabe no dia em que eu morrer

e voce for pensar em tudo que fiz

quem sabe nos dias em que voce lembrar

voce verá que nao terei feito muito


não terei sido ultimo nem primeiro

não terei explorado o espaço

não terei morrido em grandes batalhas

mas terei andado muito de metrô


eu sei que nos dias em que voce lembrar

verá tudo que trilhei

que se minha vida chegou em algum lugar

foi andando de metrô

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

 Tenho a constante sensaçao de que habito uma dimensao espelhada na qual as pessoas existem mas eu nunca as encontro, seus copos sujos aparecem na pia mas não vejo ninguem beber agua, como seu eu estivesse pilotando um carro em uma corrida que eu não faço parte. Claro que as pessoas existem, claro que as pessoas existem. Claro que as pessoas existem e claro que eu sou uma pessoa também. 
Olhar para carros não é o mesmo que olhar para pessoas, eu devo olhar para milhares de carros diferentes todos os dias, figuras monoliticas acelerando monotonamente e fatalmente sempre para a frente dentro de um limite que não existe em lugar nenhum sequer na consciencia humana. Os carros não são pessoas, é claro. Os carros são carros e as pessoas são pessoas. A lei não se materializa diretamente, como toda boa decisão humana ela se materializa como dor, do suplício a ulcera vivemos e morremos pelo limite.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

O homem feliz é uma árvore seca,

ágil e leve, dado e moldado aos ventos.

Uma árvore sem seiva e sem raízes.

É ágil de vazio e leve porque já morreu.

O homem feliz, desfolhado, não sente o sol,

é um puleiro sem ninhos, o homem feliz.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

limbo

meu coração não acelera faz tempo,

minhas mãos não tremem faz tempo,

há algo de errado comigo,

me sinto estranho.


sobretudo minhas emoções desistiram.

a dor enfim se dissipou em um morno

luto intermitente pelas emoções.


choro por não ter por que chorar.

rio por tudo ser tão maçante.


não vejo nada além do amanhã.

não lembro de nada além do ontem.



quarta-feira, 28 de junho de 2023

Penso

 Fiz o vídeo referente aos textos "Penso que penso demais" e "À lua querida". Quis representar o caráter sórdido da vida do homem que se tornou egoísta por falta de opção. A referencia do texto é como sempre Fernando Pessoa, nesse caso sua obra ortônima "Furia nas trevas o vento". A referência de imagem é novamente "Det Perfekte Menneske" que não consigo tirar da minha cabeça. A música é Lagrima de Francisco Tárrega com um efeito pesado de reverberação.



segunda-feira, 19 de junho de 2023

Penso que penso demais

Penso que penso demais

Penso e não cesso

Penso, penso e penso

Penso no penar de pensar sem cessar

Penso no penar de cessar de pensar.


Penso antes de falar e perco a voz

Penso antes de fazer e perco a vez

Penso agora que as vezes não penso

Penso agora que as vezes eu falo

Penso agora que as vezes eu faço


Penso que viver me faz pensar

Penso enquanto vivo que hei de pensar

Penso que temo viver porque temo pensar

Penso que sem viver só me resta pensar

Penso porque penso e odeio pensar.


À lua querida

O dia se foi, e a noite chegou.

Penso sobre o dia.

Tinha tanta coisa pra fazer,

não fiz.

Tanta luz para aproveitar,

não aproveitei.


De noite já está tudo fechado,

frio, escuro e dormente.

Inundado na escuridão reflito, 

lembro do dia ter sido muito lindo,

quente, claro e vívido.


Durante o dia não lembrei de fazer nada,

apenas vivi o calor a claridade e a nitidez.

Sorri e me sorriram de volta,

abracei e me abraçaram de volta,

amei e acreditei me amarem de volta.


Agora que o sol já foi, penso:

o dia foi curto demais.

Agora que eu só estou, penso:

a noite será longa demais.


Não quero dormir.

Não posso perder esse dia.

Quero ficar nessa noite para sempre,

esperando o sol voltar.