quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Ensaiando o sanduíche #1

Com certeza uma das coisas mais interessantes que existem na gastronomia é o sanduíche. Uma apresentação verdadeiramente sintetizada de possibilidades infinitamente complexas: O propósito de todo artista sério. Todos os fatores possíveis do sanduíche se apresentam ao comensal ao mesmo tempo, de forma única, em apenas uma mordida. Todos os elementos e camadas do sanduíche estão abertos ao pensamento fantasioso de famintos cozinheiros. O pão se torna um palco em que, sanduíche após sanduíche, grupos de ingredientes diferentes se apresentam, alguns com mais harmonia do que os outros, alguns de forma escassa, e alguns chegam a ser exagerados, mas uma coisa é quase sempre certa: o espectador se sente honrado de participar  da fagia desta apresentação de ingredientes. Desde que me conheço por gente eu como sanduíches e, é claro, depois que entrei para o mundo da gastronomia comecei a entender o que sentia, o que queria sentir e o que poderia emanar através do complexo mundo do pão recheado. Me especializei na fundação, no palco, na constituição principal do sanduíche: O PÃO. Me tornei um padeiro de altíssimo nível. Eu levo o sanduíche a sério e imaginei que se não fosse mestre do cerne fundamental da construção de um sanduíche eu nunca poderia sequer ousar pensar em inventar sanduíches, afinal, toda inovação parte da maestria dos fundamentos. 

O pão, sem duvida, é a parte mais importante de qualquer sanduíche. O pão é o primeiro contato com a boca, é o representante principal de textura, é o bloco construtor de toda ambiciosa megalópole de sabor. Sem um bom pão, o sanduíche não se completa. O pão é, ao mesmo tempo, a introdução e a conclusão; o pão abre o concerto, lubrifica a plateia e abre alas para o brilho do recheio. Isso se confirma nos casos contrários; quem nunca comeu um sanduíche e ao sentir o céu da boca estufado por uma massa obtusa, olhou para a própria lapela coberta de recheio e percebeu que aquele sanduíche que tinha muito potencial se tornara um estorvo em uma outrora deliciosa refeição? Um bom pão carrega um recheio ruim, mas um bom recheio sempre será defasado por um mau pão (sim, mau. Pães ruins são ofensivos). O pão, é claro, se apresenta de uma quantidade de formas equivalente à massa estelar de uma noite em alto mar. São infinitas as possibilidades: baguette, focaccia, ciabatta, forma, rosca, filão, croissant, francês, português, sírio, tortilla, naan, concha, cristal, boule, batard, panettone, centeio, miga, tortano, bao, campanha, brioche, brioche sucrée, brioche nanterre, brioche à tête, brioche vendéenne, brioche saint genix, e eu poderia perder o resto da minha vida citando pães, porém saiba apenas que se o ingrediente principal é farinha e é fermentado, se pode fazer sanduíche.

Cada tipo de pão chama um tipo de recheio, como acordes em uma melodia, perguntas e respostas, conflitos e resoluções, o doce e o amargo, o sal da terra e o doce da chuva. Não seria diferente que o sanduíche precisasse também ser acometido pelo equilíbrio cósmico que rege todas as facetas da nossa vida. Um pão um pouco mais mole, de mordida curta, para poder abarcar um recheio também mole e, muitas vezes, úmido, precisa passar por um processo de transformação ígnea que confere no pão a estrutura necessária para possibilitar a apresentação de uma verdadeira consonância brejeira de ingredientes. Assim como muitas vezes se demolha o pão duro, de mordida longa, com condimentos e gorduras para que ele não se apresente de forma desmedida em relação ao tímido recheio. O arquiteto deve sempre buscar o equilíbrio.

É então, buscando a maestria sobre o complexo universo da arquitetura do sanduíche e, principalmente, sobre o sempre inovado mundo dos recheios, que inicio aqui uma série de ensaios sobre experimentos que farei no âmbito dos sanduíches. É motivado de uma vontade muito antiga, que declaro aberta a série "Ensaiando o sanduíche". Com muito orgulho, lhes apresento o primeiro e singelo sanduíche que finalmente me levou a finalmente tirar esta velha ideia das gavetas do pensamento:

Pão de forma clássico. Atualmente estou completamente apaixonado pelo pão de milho da marca nutri vida, que, apesar de possuir melhoradores de farinha, ainda transparece um pouco de respeito pelo ávido consumidor médio de pão e apresenta um produto de certa forma respeitável. 6/10

Maionese Kewpie. Um clássico, inigualável, se nunca provou, prove, se não tem na sua geladeira, compre imediatamente. Mais uma daquelas coisas bobas do dia a dia que os japoneses decidiram um dia se tornarem os líderes de todo o mercado. Lembre-se de que a maionese é gordura, portanto trate-a como gordura, passe-a no pão e leve ao fogo bem baixo, não mexa muito, quanto mais tempo você tiver nessa etapa, mais você será recompensado. Deixe a mágica acontecer e quando a superfície do pão estiver coberta por uma tenra película âmbar, tire da frigideira. 10/10

Picles Doce. Qualquer picles que seja feito com uma proporção maior do que 1/3 de açúcar e que leve bastante Dill em sua composição, e, é claro, pepino. Não me venha com mini milhos em conserva, quando eu digo picles eu digo pepinos em conserva de vinagre e ponto final (aos fãs do Noma, que, se pudessem, colocariam até a própria mãe em uma solução salina, tirem os sapatos e pisem em um pouco de grama, vai lhes fazer bem.). Cortado em rodelas finas e colocados sobre a maionese de forma a não se sobreporem, porém preenchendo toda a superfície do pão. 8/10

Queijo e Presunto. Quem sou eu, ou melhor, quem somos nós? Somos brasileiros, crescemos comendo queijo e presunto. Sabemos desde os nossos primórdios qual nosso queijo e presunto favoritos, portanto use-os. Neste caso, porém, utilizei o queijo lua cheia da maravilhosa Serra das Antas. O nasal fúngico desse queijo combinou muito com o todo que houvera sido construído entre as duas camadas de pão de forma e recomendo àqueles que são um pouco mais versados em queijos. Esquentei o queijo em um forno elétrico para volatilizar os seus aromas, mas nada além disso. 7/10

Este é o primeiro sanduíche desta série que pretendo manter pela totalidade da minha vida. Reproduzam-o, sejam felizes, ele é um dos mais simples de todos, sem dúvidas, muitos dos que chegarem a ler isto já o terão comido alguma vez na vida, mas... aproveite a ocasião, faça ele novamente, aproveite a simplicidade, a síntese, a honestidade de um bom e correto sanduíche. Seja feliz e que Deus te abençoe. 7.75/10


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Consulta


Doutor, estou com uma dor tremenda, doutor.

Uma dor esquisita, doutor.

Esta dor, doutor, não dói em lugar algum,

mas, doutor, quando dói, doutor, dói parece que atrás dos olhos,

dói parece que entre as orelhas, sabe?

Bem naquele lugar que não conseguimos ver, sabe, doutor?

Bem onde fica o pensamento, sabe, doutor?

Bem onde fica o pensamento, você sabe, doutor!

Esta dor, doutor, não é como a que tenho nos joelhos,

não! Doutor, a dor dos meus joelhos me deixa imóvel,

me causa ânsia, me faz suar frio, engolir seco...

Já esta dor esquisita não, doutor, ela é... ela é, sabe...

pensando bem doutor, os sintomas são os mesmos.

Tem dias em que acordo possuído por esta dor, 

nestes dias, fico até animado quando meus joelhos doem.

Meus joelhos me distraem desta dor na têmpora.

A dor dos meus joelhos faz sentido, doutor,

o que faz sentido não me incomoda, doutor,

esta dor que não da pontadas, doutor,

esta dor que não queima, doutor,

esta dor não faz sentido algum, doutor.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 

A parte que atualmente se apresenta mais curiosa em minha vida é a que se diz respeito aos pedidos que fazemos durante a vida. Recordando meu quarto de centena, consigo me lembrar de diversos pedidos fundamentais que fiz e que inevitavelmente foram cumpridos. Fiz estes pedidos ao ar, ao travesseiro, ao espelho, às costas das pessoas, aos prantos e quem quer que tenha os escutado, os cumpriu. 

Os pedidos se manifestam na minha vida como a erupção de uma longa batalha entre a insatisfação e a negação. Vivo constantemente altaneiro às minhas situações até o momento em que me deparo em estados indesejáveis. A principio estes indesejos são pequenos e posso carregá-los em meus bolsos, eventualmente eles ficam maiores e mais pesados e mais difíceis de serem ignorados. Certo dia no entanto, ao olhar para o espelho eu percebo que, movida por uma tóxica e constante aversão por si mesmo, se instalou uma indelével catarata sobre todo o meu julgamento. Aí se consolida a cólera, os altos muros da íngreme negação caem pelas mãos ardilosas da insatisfação e sobre o cadáver coberto pela mortalha de vergonha, ressoam os pedidos desesperados de uma alma fraca.

O primeiro pedido pelo qual me lembro de declarar em brado de derrota veio de uma longa insatisfação com o meu estado fisico. Eu era gordo e sofria relativamente bastante com isso. Ser um menino gordo te faz entender um pouco mais cedo algumas dores crônicas da vida. Você não sofre grandes injustiças, dolos inimagináveis ou violências extremas, você sofre pequenas pontadas ao longo da semana. Alguns dias passas desapercebido, alguns dias olhas para os seus dedos roliços, puxa a pele por trás da falange e vê como estes asquerosos dedos seriam se você fosse magro. Alguns dias você vê do outro lado da rua um grupo de pessoas rindo e claro, com certeza, eles não estavam rindo de mim, isso nem faria sentido. Te atormentam diariamente o constante ato involuntário de arrumar a camiseta, se cobrir sempre que possível ou ter que justificar para si mesmo todos os dias, a sádica decisão de vestir escaldantes blusas que abrigam de forma aceitável o seu estorvo sebáceo. A familia, os amigos e os professores servem como ásperos lembretes e, a todo o instante você se compara, incessantemente o seu confuso olhar se machuca, você abraça todos os dias arbustos espinhentos que você mesmo plantou e, sempre que necessário você se encontra de prontidão para ser alvo de alguma piada, afinal este é o seu papel. Um dia então, eu pedi, pedi ao espelho e aos prantos, e acho que também pedi para Deus. Pedi para ser magro. Dentro de poucos meses entrei na minha atrasada puberdade, cresci e meu peso se espalhou em um corpo trinta centímetros mais alto. Eu estava magro e como um pesadelo ou uma penitência, tão rápido quanto eu engordara, eu emagreci. 

Desde então conforme fui vivendo, fui pedindo. Meus pedidos sempre se consolidavam, tangenciando todos os vertices da minha vida, de alguma forma, eles sempre aconteciam. Alguns chegavam mais rapidamente, alguns demoraram anos e alguns ainda chegarão. Curiosamente não me lembro de nenhum dos pedidos que ainda estão em aberto com o universo. Creio que peço tudo, tudo tudo. Tudo que se pode querer, tudo que se pode pedir, eu pedi. Se fiz alguma coisa em todos a minha vida, esta coisa deve ter sido ansiar. Portanto, quando hoje me pego olhando para os róseos dedos de Eos e sou absorvido em pensamentos de reconhecer minhas fortunas da vida, penso sempre que todos os frutos que colhi foram plantados pelo o meu pedido.  

São Paulo, 4 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Habemus vídeo

Depois de uma boa seca criativa consegui encontrar um caminho para finalizar o audio e, consequentemente, o vídeo de "Não Jogue Lixo na Rua". Afinei o violão em Dó e estava brincando com os dois primeiros acordes de "Canto da Lua" do genial Lucas Madi. A segunda melodia de violão é de alguma música dos Novos Baianos que não consigo me lembrar agora exatamente qual. Mesmo assim, estou feliz de poder concluir finalmente este projeto que alugou todo o meu espaço criativo por um bom tempo.